Saúde

Afastamentos por transtornos mentais dobraram em dez anos, chegando a 440 Mil

Dados do Ministério da Previdência Social apontam aumento de 67% nos afastamentos devido à saúde mental em 2024.

11 de Marco de 2025
Foto: Marcelo Camargo / Agencia Brasil

Em 2014, quase 203 mil brasileiros foram afastados do trabalho devido a transtornos mentais, como episódios depressivos, transtornos de ansiedade, reações a estresse grave, entre outros. Agora, dez anos depois, esse número mais que dobrou, alcançando mais de 440 mil afastamentos, de acordo com dados do Ministério da Previdência Social. Este aumento representa o maior registro da série histórica, com uma alta de quase 67% em comparação com 2023. 

Entre os afastamentos registrados em 2024, os transtornos de ansiedade lideram, com 141.414 casos, seguidos por episódios depressivos (113.604) e transtornos depressivos recorrentes (52.627). Também foram registrados afastamentos por transtorno afetivo bipolar (51.314), uso de substâncias psicoativas (21.498), reações ao estresse grave (20.873), esquizofrenia (14.778), uso de álcool (11.470) e uso de cocaína (6.873), além de transtornos de personalidade (5.982). 

Quando comparado a 2014, os afastamentos por transtornos de ansiedade aumentaram mais de 400%, passando de 32 mil para 141 mil, enquanto os afastamentos por episódios depressivos quase dobraram durante a mesma década. 

Análise de Especialistas 

O professor de psicologia da Universidade Federal da Bahia e membro do Conselho Federal de Psicologia, Antonio Virgílio Bittencourt Bastos, atribui o crescimento desses afastamentos à crescente crise de saúde mental no Brasil. Para ele, os números refletem um fenômeno já identificado por especialistas: "Os indicadores de adoecimento e de sofrimento psíquico extrapolam o mundo do trabalho. A crise de covid-19 nos trouxe essa pós-pandemia. Vivemos numa sociedade adoecida." 

Bittencourt Bastos destaca que a crise não é apenas local, mas global, com mudanças sociais, econômicas e tecnológicas profundas. "Nos modos de interagir, na digitalização da vida, nos avanços tecnológicos que reestruturam toda a nossa dinâmica social. Esse conjunto de mudanças sociais, tecnológicas e econômicas geram um mundo muito mais inseguro e incerto", afirma o especialista. 

Mudanças no Mundo do Trabalho 

Segundo o psicólogo, a crise de saúde mental está intimamente ligada ao contexto de rápidas transformações sociais e da dinâmica acelerada do trabalho. Ele observa que a reestruturação do mundo do trabalho, com a implementação de novas tecnologias e a precarização das condições laborais, tem um impacto direto no bem-estar psicológico dos trabalhadores. "Estamos no meio de um processo muito intenso de reestruturação da vida em sociedade e é natural que as pessoas reajam a essas mudanças com dificuldades." 

Além disso, o especialista observa que os modelos de gestão ainda são, em muitos casos, antiquados e autoritários, o que contribui para aumentar as tensões e os conflitos no ambiente de trabalho. "Temos uma cultura que favorece práticas mais autoritárias, que levam a maior quantidade de tensões e conflitos e relações interpessoais mais difíceis." 

Qualidade de Vida e Soluções Paliativas 

De acordo com Bastos, manter a qualidade de vida tornou-se um desafio primordial, principalmente considerando as dificuldades em equilibrar a vida pessoal, familiar e profissional. "Como construir um mundo mais sustentável, harmônico, onde as pessoas conseguem equilibrar a vida familiar e a vida pessoal. Isso tudo é um grande desafio." 

O psicólogo também aponta que muitas das iniciativas implementadas para lidar com a crise da saúde mental são paliativas, tratando apenas os sintomas e consequências do problema, sem chegar às raízes da questão. "Não basta dar assistência psicológica e o problema será solucionado. É necessário mexer profundamente na forma como o trabalho está organizado, na forma como as relações estão estabelecidas." 

Bastos conclui que é urgente promover mudanças estruturais nas organizações e na gestão do trabalho para enfrentar a crise de saúde mental, que, segundo ele, exige mais do que ações de curto prazo. "Nossa preocupação é não imaginar que basta dar assistência psicológica e o problema será solucionado." 

 

Com informações da Agência Brasil.

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