Espetáculo de Daniel Esteves transforma memórias autobiográficas em dança-teatro sobre identidade, invisibilidade e existência.
O espetáculo “Matrioska”, da Companhia Transversal de Artes Integradas, estreia no dia (15), no Teatro da Instalação, em Manaus. Criado e interpretado por Daniel Esteves, com direção compartilhada entre o artista e a diretora Nicka, o monólogo leva ao palco uma narrativa sobre transmasculinidade, identidade, pertencimento e as diferentes camadas que atravessam a construção de um corpo trans.
A montagem parte de experiências autobiográficas de Daniel Esteves e utiliza a dança não apenas como coreografia, mas como linguagem capaz de revelar memórias, afetos e conflitos. O artista, que também atua como pesquisador do corpo, transforma suas próprias vivências em uma investigação sensorial sobre aquilo que move o corpo e sobre as histórias que permanecem inscritas nele.
O projeto foi contemplado pelo Edital de Chamamento Público nº 08/2024 – Fomento à Execução de Ações Culturais do Segmento Trans, integrante do primeiro ciclo de editais da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), realizado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas.
O nome “Matrioska” faz referência à tradicional boneca russa formada por peças encaixadas umas dentro das outras. Na obra, essa imagem funciona como metáfora para as diferentes camadas que compõem o processo de construção da identidade e da transição. Segundo Daniel, a criação nasceu da necessidade de ampliar a presença de narrativas transmasculinas e de refletir sobre como a transfobia atravessa situações cotidianas, inclusive em espaços como consultas médicas e relações sociais.
Apesar de partir de uma experiência pessoal, o espetáculo busca ampliar a discussão para questões coletivas relacionadas a identidade, masculinidades e pertencimento. Para a co-diretora Nicka, a montagem entende cada corpo como um território marcado por memórias e formas singulares de existir. Ela compara a obra a um iceberg, que começa pela superfície e avança gradualmente para camadas mais profundas e íntimas.
A dramaturgia também foi construída a partir do próprio corpo de Daniel em cena, utilizando procedimentos próximos da autoetnografia e referências da dança-teatro. De acordo com Nicka, o artista ocupa simultaneamente os lugares de intérprete, documento e território da obra. A proposta não é apenas representar acontecimentos, mas investigar como violências, afetos e lembranças permanecem registradas fisicamente.
Após a estreia em Manaus, “Matrioska” seguirá para uma circulação em escolas públicas, acompanhada por rodas de conversa com estudantes. Daniel afirma que a iniciativa pretende ampliar o diálogo sobre pessoas trans, especialmente homens trans, além de criar espaços de escuta, acolhimento e troca para estudantes que muitas vezes não encontram esse tipo de apoio no ambiente escolar.