Presidente da Abag defende reconstrução da confiança com o governo após a reeleição e aponta juros elevados, endividamento e riscos climáticos como desafios para o setor.
O presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Ingo Plöger, afirmou que a relação entre o setor agroindustrial e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisa ser reconstruída após um terceiro mandato marcado por dificuldades de diálogo. Em entrevista à Folha de S.Paulo, divulgada nesta terça-feira (3), no Rio de Janeiro, o dirigente defendeu uma aproximação entre o Executivo e os representantes do campo, destacando que a retomada da confiança será fundamental para enfrentar os problemas econômicos e produtivos do agronegócio brasileiro.
Segundo Plöger, Lula terá de realizar um esforço para reduzir a polarização política após a reeleição presidencial. Para ele, o resultado das urnas deve ser respeitado por todos os setores da sociedade, independentemente das posições defendidas durante a campanha. O dirigente considera que as lideranças empresariais e políticas precisam estabelecer canais permanentes de negociação, com maturidade e planejamento de longo prazo.
A relação entre o agronegócio e o governo petista foi marcada por divergências ao longo dos últimos anos. Durante a campanha presidencial de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno, buscou se aproximar de representantes do setor rural e incorporou demandas dos produtores ao discurso eleitoral. Após a vitória do presidente, entidades empresariais passaram a defender uma agenda de diálogo, responsabilidade fiscal e segurança jurídica.
Apesar de registrar safras recordes, ganhos de produtividade e abertura de novos mercados internacionais, o agronegócio brasileiro enfrenta dificuldades financeiras. O aumento do número de pedidos de recuperação judicial, o endividamento de produtores e os custos elevados de financiamento preocupam as lideranças do setor. De acordo com Plöger, a combinação de juros altos e preços internacionais menos favoráveis tem reduzido a rentabilidade das atividades rurais, mesmo quando a produção apresenta crescimento.
O presidente da Abag avalia que o cenário exige medidas coordenadas entre governo, instituições financeiras e empresas. A preocupação é que produtores continuem ampliando a produção sem conseguir gerar receita suficiente para cobrir despesas operacionais e compromissos financeiros. Em julho, o dirigente já havia criticado as condições do Plano Safra 2026/2027, argumentando que as taxas de juros dificultavam a contratação de crédito para investimentos e custeio agrícola.
Outro ponto de atenção é a possibilidade de intensificação do fenômeno climático El Niño, capaz de alterar a distribuição das chuvas e elevar as temperaturas em diferentes regiões do Brasil. As mudanças climáticas representam riscos à produtividade, ao abastecimento e ao planejamento das safras, especialmente para agricultores que dependem de condições meteorológicas regulares. A Abag defende a ampliação do seguro rural e de mecanismos financeiros destinados à proteção contra perdas provocadas por eventos extremos.
Plöger também demonstrou preocupação com os efeitos de uma eventual mudança na escala de trabalho 6x1. Segundo o dirigente, atividades como a ordenha de animais, a alimentação de criações e a colheita de determinados produtos exigem funcionamento contínuo, inclusive aos fins de semana. Na avaliação dele, alterações na legislação trabalhista poderão aumentar os custos e exigir reorganização das jornadas no campo. A proposta de mudança da escala, entretanto, ainda depende de discussão e aprovação no Congresso Nacional.
O plano de governo apresentado por Lula para o próximo mandato reconhece o agronegócio como um dos setores fundamentais para a economia brasileira, especialmente por sua participação nas exportações e no Produto Interno Bruto (PIB). Entre os compromissos anunciados estão o fortalecimento do crédito rural, a ampliação dos recursos do Plano Safra, a diversificação das fontes de financiamento e o aperfeiçoamento do seguro agrícola. O documento também prevê medidas de adaptação às mudanças climáticas e estímulos à sustentabilidade da produção.