Oscilação entre grandes cheias e secas afeta transporte, indústria e economia regional.
A Amazônia tem enfrentado fenômenos climáticos extremos com frequência crescente, alternando entre recordes de cheias e secas severas, o que pressiona o transporte fluvial, encarece a logística e reforça o apelo por investimentos urgentes em infraestrutura, especialmente em hidrovias.
O Rio Negro, que banha Manaus, é monitorado há 123 anos. Das dez maiores cheias registradas, sete ocorreram nos últimos 17 anos, sendo a mais intensa em 2021, com 30,02 metros. Já em 2023 e 2024, o rio atingiu os níveis mais baixos de seca já registrados. Em 2024, ultrapassou a cota de inundação severa.
Segundo André Martinelli, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (SGB), a tendência se repete em outros grandes rios da região.
“Apesar da diferença de tempo, vemos recordes sendo batidos em todas as bacias, Japurá, Juruá, Purus, Solimões, Negro”, explica.
Os especialistas alertam para o aumento da distância entre os níveis máximos e mínimos dos rios, o que agrava os impactos nas comunidades e na economia.
“É uma mudança perceptível no regime de chuvas da região. Mesmo com ações humanas, levará décadas para retomarmos os padrões anteriores”, diz Renato Sena, pesquisador do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).
Impacto na economia
A imprevisibilidade climática tem afetado diretamente a logística e o setor produtivo. Para Nelson Azevedo, vice-presidente da FIEAM, os custos crescentes e os atrasos impactam a indústria, agricultura e transporte.
“Vemos prejuízos crescentes. Os eventos climáticos extremos pressionam a necessidade de adaptação”, afirma.
Durante a seca de 2024, o custo para levar um contêiner até Manaus chegou a R$ 32 mil, o dobro do valor cobrado no ano anterior, quando já havia sido registrada a pior seca da história.
Para o Centro da Indústria do Estado do Amazonas (CIEAM), a solução definitiva está na criação de uma hidrovia permanente com calado adequado para navegação o ano todo.
“Enquanto isso não sai do papel, temos contado com a parceria de portos privados para manter o abastecimento”, explica o presidente-executivo do CIEAM, Lúcio Flávio.
O SGB não prevê uma seca extrema para 2025, mas os impactos econômicos continuam sendo motivo de alerta.
“Estamos diante de uma encruzilhada: podemos transformar esse desafio em oportunidade e avançar com uma economia sustentável, ou aprofundar desigualdades e perder competitividade”, conclui Azevedo.