Ministério Público investiga suposta simulação de venda de créditos de US$ 74,4 milhões; crise no Ueno Bank provoca protestos, mobiliza autoridades e atinge o governo paraguaio.
Um escândalo financeiro envolvendo o Ueno Bank, uma das instituições bancárias de maior crescimento recente do Paraguai, provocou a prisão de oito dirigentes, protestos nas ruas e a abertura de um processo de encerramento das operações do banco. O Ministério Público paraguaio investiga suspeitas de fraude e de irregularidades em empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador da instituição. Entre as operações analisadas está uma suposta venda simulada de uma carteira de créditos de US$ 74,4 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 408 milhões. O caso também aumentou a pressão política sobre o presidente do país, Santiago Peña, que manteve vínculos financeiros com a holding controladora do banco até 2025.
Segundo informações divulgadas pelo jornal paraguaio Última Hora, a investigação aponta que o Ueno Bank teria utilizado empresas relacionadas à própria instituição para realizar operações financeiras destinadas a ocultar sua real situação patrimonial. Entre as companhias mencionadas estão MOWI, Grupo Hendy, Grupo M, Tuiu, Franede e Aime. Os investigadores suspeitam que empréstimos tenham sido concedidos de maneira irregular e que uma parte dos recursos tenha circulado entre empresas vinculadas ao grupo financeiro, criando uma aparência de movimentações comerciais legítimas.
Uma das principais suspeitas envolve a empresa Vinanzas S.A., que teria adquirido do Ueno Bank, em 15 de junho de 2026, uma carteira de créditos avaliada em US$ 74,4 milhões. Segundo o relato da investigação, a companhia possuía apenas US$ 93,8 mil disponíveis um dia antes da operação, mas recebeu um aporte de aproximadamente US$ 76 milhões na mesma data da compra. O Ministério Público suspeita que o dinheiro utilizado para adquirir os créditos tenha saído do próprio banco, passando por empresas intermediárias antes de retornar à instituição financeira.
As apurações também identificaram transferências milionárias realizadas nos dias anteriores à negociação. Entre as empresas citadas estão Technoma, La Tropa Fletes, HD Invest, Satec e Factopar. Segundo os investigadores, parte dos recursos teria sido encaminhada diretamente à Vinanzas, enquanto outros valores passaram por companhias que seriam utilizadas como intermediárias financeiras. A suspeita é de que a movimentação tenha permitido ao Ueno Bank retirar determinados créditos de seu balanço sem que houvesse uma venda efetiva para um comprador independente.
A crise se agravou quando o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou, em 3 de novembro, o início do procedimento de resolução do Ueno Bank, após identificar um índice de solvência inferior à metade do mínimo exigido pela legislação. O órgão regulador apontou problemas na avaliação de riscos de crédito, inconsistências em informações financeiras e dificuldades para comprovar a capacidade de pagamento de empresas que receberam empréstimos. A medida iniciou o processo de intervenção e reorganização dos ativos da instituição, com o objetivo de proteger os depositantes e preservar a estabilidade do sistema financeiro.
Oito dirigentes do banco foram detidos na terça-feira (3), entre eles Juan Manuel Gustale, presidente da instituição, Federico Miguel Vázquez Villasanti, ligado ao grupo controlador, Diana Leticia Mongelós González e outros executivos. Ao todo, 26 pessoas foram formalmente investigadas por suspeitas de crimes econômicos, incluindo abuso de confiança e operações financeiras irregulares. Nesta quinta-feira (5), os oito dirigentes devem passar por audiências judiciais em Assunção, nas quais serão avaliadas medidas cautelares, incluindo a possibilidade de prisão preventiva. As acusações ainda dependem de julgamento e não representam condenações definitivas.
O encerramento das atividades do banco provocou preocupação entre clientes e investidores. Para reduzir os impactos, o Banco Central anunciou o pagamento antecipado de valores do Fundo Garantidor de Depósitos, com início previsto para esta quinta-feira (5) e conclusão em até cinco dias úteis. A garantia legal alcança até 228,3 milhões de guaranis por depositante, equivalente a aproximadamente US$ 38 mil, enquanto o pagamento inicial será limitado a 40 salários mínimos. Recursos que ultrapassarem a cobertura garantida dependerão dos demais procedimentos de recuperação previstos pela legislação paraguaia.
O escândalo também gerou manifestações em Assunção, capital do Paraguai. Na noite de quarta-feira (4), manifestantes protestaram contra o fechamento do banco e cobraram explicações sobre a fiscalização financeira. Parte dos participantes também defendeu a abertura de um processo de impeachment contra Santiago Peña, que foi investidor da holding ligada ao Ueno Bank até março de 2025. Segundo a imprensa local, a polícia utilizou equipamentos de dispersão durante os atos. O presidente paraguaio enfrenta críticas sobre a supervisão das operações bancárias e o volume de recursos públicos depositados na instituição.
Fundado como fintech em 2021, o Ueno Bank cresceu rapidamente e chegou a aproximadamente três milhões de clientes, tornando-se uma instituição relevante no mercado financeiro paraguaio. O banco investiu em publicidade, expansão de agências e patrocínios esportivos, incluindo a seleção nacional de futebol. Entretanto, o crescimento acelerado passou a ser acompanhado por questionamentos sobre empréstimos a empresas relacionadas ao grupo controlador. A crise agora preocupa investidores e pode trazer consequências para a confiança no sistema financeiro do Paraguai, enquanto as autoridades aprofundam as investigações.