Mundo

Bolívia realiza segundo turno sem a esquerda após duas décadas de domínio do MAS

Divisão entre Evo Morales e Luis Arce leva partido histórico a derrota inédita nas urnas.

17 de Outubro de 2025
Foto: Reprodução / X / Rodrigo Paz / Tuto Guiroga

A Bolívia vai às urnas neste domingo (19) para decidir o novo presidente em um segundo turno que encerra um dos ciclos políticos mais duradouros da América Latina. Pela primeira vez em quase 20 anos, o Movimento ao Socialismo (MAS), legenda de orientação esquerdista que governou o país desde 2006, ficará fora da disputa presidencial, após um desempenho considerado o pior de sua história.

O MAS, enfraquecido por divisões internas entre os grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales e ao atual mandatário Luis Arce, obteve menos de 4% dos votos no primeiro turno, realizado em agosto, com Eduardo del Castillo como principal candidato. O melhor desempenho à esquerda foi o de Andrónico Rodríguez, presidente do Senado, que alcançou 8,15% dos votos.

O segundo turno será disputado entre o senador Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão, que obteve 32,08% dos votos, e o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, da Aliança Livre, que recebeu 26,94%. Paz Pereira é visto como um político de centro, enquanto Tuto se posiciona mais à direita conservadora.

Fim de uma era política

O resultado marca o colapso do movimento liderado por Evo Morales, que chegou ao poder em 2005 como o primeiro presidente de origem indígena da Bolívia e promoveu profundas transformações sociais e econômicas no país. Durante seu governo (2006–2019), o país registrou crescimento médio de 5% ao ano, impulsionado pela exportação de gás natural, principalmente ao Brasil e à Argentina.

Na década passada, o país viveu o que ficou conhecido como “milagre econômico boliviano”, com estabilidade, aumento da renda e queda da pobreza. No entanto, a dependência das exportações de gás e a falta de investimento em novas reservas provocaram crises sucessivas a partir de 2023, com escassez de dólares e inflação crescente.

“Essa divisão drástica entre os dois grupos foi como uma pá de terra no caixão”, afirma o jornalista e escritor boliviano Fernando Molina, autor do livro Las cuatro crisis. Historia económica contemporánea de Bolivia. Segundo ele, a fragmentação interna do MAS “foi uma autodestruição” que abriu espaço para o avanço das forças de centro e direita.

Rivalidade e desgaste da esquerda

Após três mandatos consecutivos, Evo Morales foi impedido pela Justiça de disputar novamente a presidência em 2019. Mesmo assim, concorreu e venceu em uma eleição posteriormente anulada após denúncias de fraude. Pressionado pelas Forças Armadas, renunciou e deixou o país, acusando os militares de liderarem um golpe de Estado. A senadora Jeanine Áñez assumiu o poder interinamente, mas foi posteriormente condenada e presa.

Em 2020, Luis Arce, ex-ministro da Economia de Evo, foi eleito presidente com apoio do MAS, mas a relação entre ambos se deteriorou rapidamente. O racha se consolidou em 2023, quando Evo foi formalmente impedido de concorrer novamente e passou a convocar seus apoiadores a votar em branco ou nulo como forma de protesto.

Arce, enfraquecido pela crise econômica e pela perda de apoio popular, optou por não disputar a reeleição. Seu ministro de Governo, Eduardo del Castillo, foi lançado como candidato do MAS, mas não passou de 3% dos votos.

Colapso do modelo econômico

O modelo defendido pelo MAS, baseado na nacionalização dos recursos naturais e no controle estatal da economia, começou a se desgastar com a queda das exportações e a redução das reservas de gás.

“Toda a aposta estava nas reservas de gás, que não foram cuidadas. Não se investiu o suficiente para que o gás continuasse alimentando o modelo do MAS. Foi uma crise enorme para a esquerda, porque dá razão àqueles que a criticaram durante décadas”, explicou Molina.

Nos anos 2000, as remessas de gás boliviano representavam cerca de 50% do consumo brasileiro; hoje, essa fatia é de aproximadamente 20%. A perda de receita reduziu drasticamente as reservas internacionais e levou o país a um déficit comercial persistente, provocando a falta de dólares e longas filas em bancos e casas de câmbio.

Novo cenário político

O esgotamento do projeto econômico e a divisão interna do MAS abriram espaço para o avanço das forças de centro e direita. A disputa entre Paz Pereira e Tuto Quiroga promete redefinir os rumos da política boliviana, pondo fim a duas décadas de hegemonia da esquerda.

Independentemente do resultado, o segundo turno deste domingo representa uma mudança histórica no panorama político da Bolívia, com a ascensão de uma nova geração de lideranças e o desafio de recuperar a estabilidade econômica de um país que já foi símbolo de prosperidade entre as nações andinas.

Leia Mais
TV Em Pauta

COPYRIGHT © 2024-2025. AMZ EM PAUTA S.A - TODOS OS DIREIROS RESERVADOS.