Estudo com mais de 300 animais expostos à radiação revela alterações no DNA ligadas à reparação celular e supressão tumoral.
Dois cães caminham pela cidade abandonada de Pripyat, na Ucrânia, em 2022, próxima ao local do desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986.
Após quase quatro décadas vivendo em áreas altamente contaminadas pela radiação do desastre nuclear de 1986, cães que habitam os arredores da usina de Chernobyl, na Ucrânia, despertaram o interesse da comunidade científica.
Um estudo recente revelou que esses animais desenvolveram mutações genéticas que podem protegê-los contra o câncer.
Pesquisadores analisaram amostras de sangue de mais de 300 cães que vivem nas zonas mais afetadas e compararam os resultados com genomas de cães de outras regiões. Foram identificadas centenas de mutações ausentes em populações caninas comuns. Parte dessas alterações está relacionada a mecanismos de reparo do DNA e supressão tumoral, processos que ajudam a evitar o desenvolvimento de câncer, mesmo sob exposição prolongada à radiação.
A radiação ionizante presente no local é conhecida por provocar danos severos ao DNA e aumentar o risco de doenças, incluindo câncer. Porém, os cientistas acreditam que a população canina de Chernobyl passou por um processo acelerado de seleção natural, no qual os indivíduos com maior capacidade de reparar danos genéticos sobreviveram e transmitiram essas características para as gerações seguintes.
O estudo, publicado em 2023 na revista Science Advances, destaca que ainda não é possível afirmar que esses cães sejam totalmente imunes ao câncer, mas aponta que a descoberta pode abrir caminhos para pesquisas médicas voltadas à proteção de humanos expostos à radiação, como trabalhadores de usinas nucleares ou pacientes em tratamento de radioterapia.
Entre as possíveis aplicações, os genes identificados poderiam servir de base para o desenvolvimento de terapias e estratégias preventivas mais eficazes.
Os pesquisadores pretendem continuar monitorando a população de cães de Chernobyl para verificar se as mutações se mantêm nas próximas gerações e se, de fato, conferem uma proteção significativa contra a doença.