Falta de estrutura, equipamentos e conectividade afeta atendimento em toda a região
Um levantamento inédito do Ministério da Saúde aponta que 62,1% das Unidades Básicas de Saúde (UBS) da Região Norte necessitam de reformas estruturais. Os dados fazem parte do Censo Nacional das UBS, realizado em 2024, e revelam que 2.543 unidades na região enfrentam problemas que comprometem o atendimento à população.
O cenário é semelhante em todo o país: seis a cada dez UBS brasileiras precisam de melhorias. Das cerca de 45 mil unidades participantes do censo, mais de 27 mil (60,1%) reportaram necessidade de reformas. Os principais problemas incluem consertos em paredes (3.473 unidades), forros (2.271), instalações hidráulicas (1.974) e elétricas (2.495).
Para a pesquisadora da Fiocruz, Lígia Giovanella, o retrato é preocupante. “Apesar dos avanços na atenção primária e na infraestrutura, ainda há um longo caminho pela frente. O Censo confirma a grande demanda por reformas e ampliações”, afirmou a especialista, que também coordena a Rede de Pesquisa em Atenção Primária à Saúde da Abrasco.
Outro aspecto crítico revelado é a falta de equipamentos. Apenas 9,1% das UBS possuem eletrocardiógrafos, essenciais para monitoramento de pacientes com doenças cardíacas, hipertensão e diabetes. Carrinhos de parada cardíaca estão presentes em apenas 13,5% das unidades e desfibriladores, em 17,8%.
A carência de instrumentos também afeta outras áreas. Apenas 18% das UBS possuem a Tabela de Snellen para exames de visão. Lígia reforça que a qualificação de profissionais e o uso de telediagnóstico podem melhorar a resolutividade dos atendimentos, mas alerta que 29,4% das unidades ainda enfrentam conexões de internet ruins ou instáveis.
No campo da imunização, o censo mostrou que embora 84,7% das UBS ofereçam vacinas, somente 79,7% têm salas exclusivas para isso. Além disso, apenas 64,5% mantêm essas salas abertas por pelo menos 40 horas semanais, abaixo da recomendação do Ministério da Saúde. Em muitos casos, a infraestrutura inadequada coloca em risco o armazenamento seguro de vacinas, já que só 55,3% têm geladeira exclusiva e apenas 38,4% possuem câmara fria.
O Ministério da Saúde anunciou investimentos de R$ 7,4 bilhões até o fim de 2026 para qualificar a atenção primária. O pacote inclui a distribuição de 180 mil equipamentos em mais de 5 mil municípios, aquisição de eletrocardiógrafos com telediagnóstico, desfibriladores, ultrassons portáteis, retinógrafos, espirômetros e câmara fria para vacinas. Também estão previstos 7 mil kits para teleconsulta e a construção de 2,6 mil novas UBS em todo o país.
“O Censo é essencial para orientar novas ações. Vamos considerar esses dados no orçamento do próximo ano e priorizar as reformas”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Embora a gestão da atenção primária seja responsabilidade dos municípios, cabe ao governo federal garantir os recursos, diretrizes e estrutura para atender às necessidades básicas da população.