Moradores convivem com alagamentos, entulho e falta de acesso seguro em bairros afetados.
A cheia do Rio Negro voltou a causar transtornos graves para moradores de áreas mais baixas da capital amazonense. Em bairros como Educandos, famílias estão vivendo entre o lixo, a água suja e a constante ameaça à saúde. A enchente invadiu casas, alagou ruas e obrigou a população a improvisar caminhos em meio ao caos.
No Educandos, o ajudante de caminhão Jonas da Silva e Silva convive com a água dentro de casa e precisou construir pontes de madeira para se locomover. “Já levantei o piso duas vezes, mas a água continua subindo. Não temos para onde ir”, lamentou. O cenário se repete em outras residências, onde moradores tentam salvar colchões e objetos essenciais.
De acordo com o Porto de Manaus, o Rio Negro atingiu 29,04 metros na última sexta-feira (4), mesmo com julho sendo, historicamente, o início da vazante. É a primeira vez desde 2014 que o rio continua subindo nesse período. Imagens feitas por drone mostram o muro de contenção do porto quase encoberto pela água, em contraste com a seca extrema registrada em setembro do ano passado.
Com a cheia, o lixo se espalha de forma descontrolada. Garrafas, entulho e restos de móveis boiam entre as casas, agravando o risco sanitário. A coleta regular foi prejudicada e o descarte irregular se intensificou. “Quando alaga, a gente perde tudo. O que der pra salvar, a gente salva. O resto fica por aí mesmo”, disse a dona de casa Nizomar de Souza Gomes.
Nizomar de Souza Gomes (Foto: Reprodução Globo)
A Prefeitura de Manaus informou que intensificou ações emergenciais, com a construção de mais de 800 metros de pontes provisórias no Educandos para garantir o acesso da população a serviços essenciais. Também está prevista para a próxima semana a entrega de cestas básicas, kits de higiene e água potável às famílias atingidas, sem necessidade de deslocamento.
Dados da Defesa Civil apontam que 133.711 famílias, cerca de 534 mil pessoas, foram afetadas pela cheia em todo o Amazonas. Dos 62 municípios do estado, 40 estão em Situação de Emergência, 18 em Alerta e apenas quatro seguem em condição de Normalidade. As nove calhas dos rios ainda estão em processo de cheia, com picos diferentes entre março e julho.
Para amenizar os impactos, o Governo do Amazonas já distribuiu 580 toneladas de cestas básicas, 2.450 caixas d’água, 57 mil copos de água potável, além de kits purificadores e uma Estação de Tratamento Móvel (Etam). O apoio humanitário tem se concentrado em cidades como Humaitá, Manicoré, Apuí, Boca do Acre e Borba. Na educação, 444 alunos de quatro municípios seguem com aulas remotas pelo programa “Aula em Casa”.
Em meio à situação, muitos moradores expressam frustração e resignação. “A vontade nossa era sair daqui. Se tivesse um lugar melhor, já tinha ido. Mas enquanto não tem, a gente tenta dar um jeito de viver”, desabafou Jonas. Enquanto o nível do rio não baixa, a população segue tentando resistir à cheia e suas consequências.
Jonas da Silva e Silva e sua família (Foto: Reprodução Globo)