Estudos destacam diagnóstico precoce, prevenção e desafios no tratamento da doença.
O neurocientista Mychael Lourenço recebeu o prêmio ALBA-Roche Prize for Excellence in Neuroscience Research, voltado a cientistas em meio de carreira com impacto relevante. Já o médico pesquisador Wagner Brum foi escolhido como “One to Watch” pela Alzheimer’s Association, destacando jovens talentos promissores.
A doença de Alzheimer afeta milhões de pessoas em todo o mundo e ainda não possui cura. Entre os sintomas mais conhecidos estão a perda de memória recente, dificuldades cognitivas e comprometimento progressivo das funções motoras, levando à dependência total do paciente em estágios avançados.
Pesquisa brasileira e os desafios da doença
Segundo Mychael Lourenço, cerca de 40 milhões de pessoas vivem com Alzheimer no mundo, sendo aproximadamente 2 milhões no Brasil, número possivelmente subestimado devido às dificuldades de diagnóstico e acesso à saúde. O pesquisador destaca a necessidade de dados mais específicos da população brasileira, já que grande parte dos estudos ainda é concentrada no chamado Norte global.
Desde sua descoberta em 1906 pelo médico Alois Alzheimer, a doença é associada ao acúmulo de placas no cérebro. Décadas depois, cientistas identificaram que essas placas são formadas por beta-amiloide, fragmentos de proteína que se acumulam de forma anormal. No entanto, mesmo com medicamentos capazes de reduzir essas placas, ainda não foi possível reverter o avanço da doença.
Lourenço investiga justamente esse “vazio” entre causa e efeito, buscando entender por que algumas pessoas desenvolvem a doença enquanto outras, mesmo com alterações cerebrais semelhantes, permanecem cognitivamente saudáveis. Estudos também analisam o papel do sistema de limpeza celular, conhecido como proteassoma, que pode estar comprometido nos pacientes.
Diagnóstico precoce ganha destaque
Outra frente importante das pesquisas está no diagnóstico precoce. O Lourenço Lab estuda biomarcadores presentes no sangue que podem indicar a doença antes mesmo do surgimento dos sintomas. A ideia é identificar a chamada “janela silenciosa”, período em que o Alzheimer já está se desenvolvendo, mas ainda não causa sinais evidentes.
“Interromper a doença antes dos sintomas pode ser o caminho mais eficaz”, afirma o pesquisador. A identificação precoce pode abrir portas para tratamentos mais eficientes e estratégias de prevenção, reduzindo os impactos da doença na qualidade de vida dos pacientes.
Nesse cenário, o trabalho de Wagner Brum também se destaca. Ele participou do desenvolvimento de protocolos para um exame de sangue capaz de detectar o Alzheimer por meio da proteína p-tau217, considerada um dos principais biomarcadores da doença.
Do laboratório para a prática clínica
O exame desenvolvido por Brum apresenta alta precisão, especialmente em casos com níveis muito elevados ou muito baixos do biomarcador. No entanto, cerca de 20% a 30% dos pacientes ainda necessitam de exames complementares, devido a resultados intermediários.
Apesar de já ser utilizado em países da Europa e nos Estados Unidos, o teste ainda é pouco acessível no Brasil, restrito a alguns laboratórios privados. O objetivo dos pesquisadores é ampliar o uso da tecnologia e viabilizar sua implementação no Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, o diagnóstico do Alzheimer no país é baseado principalmente na avaliação clínica e em exames de imagem, como tomografia e ressonância magnética, que nem sempre são específicos. Métodos mais precisos, como o exame de líquor e o PET-CT, ainda são caros e de difícil acesso.
Perspectivas para o futuro
A introdução de exames de sangue no diagnóstico pode representar um avanço significativo, tanto na identificação precoce quanto na condução do tratamento. Estudos em andamento no Rio Grande do Sul já avaliam a eficácia da tecnologia em larga escala, com planos de expansão para outras regiões do país.
Para os pesquisadores, o reconhecimento internacional reforça a relevância da ciência brasileira no cenário global. As pesquisas contam com apoio de instituições como a Faperj, a Fundação Serrapilheira e o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, demonstrando o potencial do país na produção de conhecimento científico de alto nível.