Meio Ambiente

Cientistas transformam plástico PET em paracetamol usando bactéria geneticamente modificada

Processo tem 92% de eficiência, zero carbono e promete revolucionar reciclagem e medicina.

03 de Agosto de 2025
Foto: Divulgação

Transformar lixo plástico em remédio pode parecer ficção científica, mas é uma realidade cada vez mais próxima. Um estudo publicado na revista Nature Chemistry revelou que cientistas da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, conseguiram converter resíduos de plástico PET no princípio ativo do paracetamol, um dos analgésicos mais consumidos no mundo, utilizando uma bactéria geneticamente modificada.

A pesquisa foi conduzida em laboratório com uma versão adaptada da bactéria Escherichia coli, que recebeu genes de um cogumelo (Agaricus bisporus) e de uma bactéria do solo (Pseudomonas aeruginosa). A modificação permitiu que a E. coli transformasse o ácido tereftálico, derivado do PET, em para-hidroxianilida, o ingrediente ativo do paracetamol.

O processo foi realizado em temperatura ambiente, sem necessidade de metais pesados, calor extremo ou catalisadores artificiais. A eficiência também impressiona: em menos de 24 horas, cerca de 92% do plástico processado foi convertido em princípio ativo, com praticamente zero emissão de carbono. Tudo ocorreu em um único recipiente, num método conhecido como “one-pot”.

Um dos marcos do estudo foi a descoberta de que a chamada “reação de Lossen”, antes só possível em condições rígidas de laboratório, pode ocorrer dentro da bactéria, em ambiente aquoso e com fosfato, substância presente no meio de crescimento celular, como único catalisador. Essa reação transforma compostos hidroxamatos em aminas, estruturas essenciais para a produção de medicamentos.

A partir disso, a E. coli foi capaz de gerar o para-aminobenzoato (PABA), uma substância intermediária que a própria bactéria utiliza para fabricar o paracetamol. Segundo os pesquisadores, essa é uma prova de que é possível combinar biologia sintética e química verde para resolver problemas ambientais e de saúde ao mesmo tempo.

Embora os testes tenham sido feitos apenas em pequena escala, o estudo abre caminho para futuras aplicações industriais. A equipe ressalta que ainda há desafios a superar, como ampliar a produção sem afetar as bactérias e adaptar o processo para biorreatores maiores. Também será necessário avaliar o custo-benefício em relação às técnicas tradicionais.

Mesmo assim, o avanço é promissor. "Este trabalho demonstra que o plástico PET não é apenas lixo ou um material destinado a se tornar mais plástico, ele pode ser transformado por microrganismos em novos produtos valiosos, incluindo aqueles com potencial para tratar doenças", afirmou Stephen Wallace, professor de biotecnologia química e autor principal do estudo.

Além de contribuir para a reciclagem de plásticos, a descoberta pode reduzir a dependência de petróleo na indústria farmacêutica, promovendo alternativas mais sustentáveis na produção de medicamentos. O estudo reforça o papel da biotecnologia como aliada na busca por soluções inovadoras frente à crise ambiental global.

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