Registros envolvem contratos do Master e do Will Bank já quitados ou inexistentes.
Clientes que contrataram empréstimos ou serviços financeiros no Will Bank e no Banco Master afirmam ter identificado dívidas registradas como ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central do Brasil. Segundo os relatos, os registros teriam sido feitos pelo Banco de Brasília (BRB), inclusive em casos de contratos já quitados ou que nunca existiram.
Os clientes descobriram as pendências ao acessar o Registrato, plataforma do Banco Central que reúne dados financeiros enviados por instituições bancárias. Muitos afirmam nunca ter mantido relacionamento direto com o BRB. O vínculo, segundo apuração, ocorreu porque o banco público comprou carteiras de crédito do Banco Master a partir de 2024 e chegou a anunciar a aquisição da instituição em março de 2025, operação estimada em R$ 2 bilhões e posteriormente vetada pelo Banco Central.
Após a liquidação extrajudicial do Banco Master, investigações da Polícia Federal passaram a apurar suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o banco controlado por Daniel Vorcaro. De acordo com a PF, o BRB teria adquirido cerca de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito consideradas de alto risco. Parte desses créditos teria sido originada pelo Will Bank, o que explicaria o surgimento dos dados de clientes agora cobrados.
Em nota, o BRB informou que, após a liquidação do Will Bank, deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre repasse e quitação das operações cedidas. Segundo o banco, pelas regras contratuais, a instituição que originou o crédito é responsável por acompanhar os pagamentos e repassar os dados atualizados. “Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no Sistema de Informações de Créditos (SCR), mesmo já tendo sido pagos no banco de origem”, informou a instituição.
Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que a cessão de carteiras de crédito é prática comum no sistema financeiro, mas exige notificação formal ao consumidor. Para o professor de direito empresarial Pedro Ramunno, sem essa comunicação, a transferência não produz todos os seus efeitos legais. Já Fabio Braga, do Demarest, destaca que também deve ficar claro quem é responsável pela gestão dos pagamentos após a cessão.
Advogados avaliam ainda que, mesmo alegando falha no repasse de informações pelo liquidante, o BRB tem responsabilidade sobre os dados enviados ao Banco Central. Segundo Bruno Balduccini, cabe ao banco comprador classificar corretamente os novos clientes e validar as informações antes do registro oficial. Para Gustavo Kloh, o BRB não pode atribuir a terceiros a responsabilidade por registros equivocados no SCR.
A situação já causou prejuízos a consumidores, como negativa de crédito e queda no score financeiro. O site Reclame Aqui registra centenas de reclamações recentes sobre dívidas desconhecidas atribuídas ao BRB, muitas delas relacionadas a contratos do Will Bank e do Banco Master já quitados ou inexistentes.
Especialistas orientam que os consumidores solicitem formalmente os contratos e a origem da dívida, registrem protocolos de atendimento e, se necessário, acionem órgãos como Procon, Consumidor.gov e o Judiciário. O BRB afirma que está cobrando o liquidante para normalizar a situação e que fará a correção imediata dos dados assim que receber as informações necessárias.
Com informações do G1.