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Crianças do Careiro ficam sem aulas por falta de transporte escolar

Comunidades relatam barqueiros sem pagamento e escolas em condições precárias no interior do Amazonas

01 de Outubro de 2025
Foto: Jessé Gomes

Dezenas de crianças do distrito de Janauacá, em Careiro Castanho, estão sem frequentar as aulas devido à paralisação do transporte escolar fluvial. O motivo é a falta de pagamento aos barqueiros responsáveis pelo deslocamento dos alunos, o que inviabilizou a continuidade do serviço.

Moradores relatam que, desde o início do ano letivo, os condutores receberam apenas dois meses de salário, em maio e julho. Sem recursos para comprar combustível, muitos não conseguem manter a rotina de viagens. Cada barqueiro deveria receber cerca de R$ 2 mil mensais, sendo a maior parte desse valor destinada apenas à gasolina.

“É impossível continuar sem combustível. A gente quer trabalhar, mas não tem como”, desabafou Thaís Oliveira, mãe de aluno e condutora de embarcação. Outros trabalhadores afirmam que nunca receberam cópia do contrato, que teria sido firmado em reuniões a portas fechadas. O pagamento atrasado só ocorreu depois que a situação foi exposta publicamente.

Enquanto isso, as famílias do Lago do Janauacá vivem o dilema entre garantir o sustento e possibilitar que os filhos estudem. “Só queremos o direito de nossos filhos voltarem para a escola. Ou passamos trabalhos em casa ou eles ficam sem atividade. Estão sendo prejudicados”, contou Zivanide Rodrigues, mãe de duas meninas de 5 e 8 anos.

Além da interrupção do transporte, a estrutura das escolas da região também preocupa. As unidades funcionam em prédios de madeira com pisos quebrados, janelas e portas que não fecham, banheiros sem manutenção e caixas d’água já desabadas. Em algumas salas, a rede elétrica não suporta aparelhos de ar-condicionado e professores improvisam com panos para tampar frestas.

(Foto: Jessé Gomes)

Com a precariedade, muitos docentes recorrem a aulas ao ar livre em espaços improvisados. A situação, segundo os pais, compromete a aprendizagem e coloca em risco a segurança das crianças. “É revoltante ver alunos avançando de série sem aprender o básico. Meus filhos não têm oportunidades porque a escola não oferece condições”, afirmou o agricultor Manoel Tiburcio.

Dados oficiais mostram que recursos federais foram destinados para o transporte escolar no município. Em 2019, o Programa Nacional de Apoio ao Transporte do Escolar (PNATE) previu mais de R$ 1,1 milhão para atender mais de 6 mil estudantes da rede pública em áreas rurais. O valor deveria custear combustível, manutenção, seguros e serviços de embarcações.

Moradores também denunciam promessas antigas de construção de novas escolas que nunca foram cumpridas. Terrenos chegaram a ser medidos, mas nenhuma obra saiu do papel. Sem transporte regular e sem infraestrutura adequada, crianças e adolescentes da zona rural de Careiro continuam privados do direito fundamental à educação.

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