Intervenção no Ueno Bank, instituição com quase 3 milhões de clientes, expõe suspeitas de irregularidades financeiras, atinge recursos públicos e aumenta a pressão sobre o governo de Santiago Peña.
Uma crise envolvendo o banco digital Ueno Bank provocou a renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), Carlos Carvallo, nesta terça-feira (3). A saída ocorreu após a autoridade monetária anunciar um processo de intervenção na instituição financeira, que atende aproximadamente 2,9 milhões de clientes. A medida foi adotada depois que o banco apresentou problemas graves de solvência, ou seja, dificuldades para manter o capital mínimo exigido para garantir suas operações. O episódio provocou o fechamento de agências, a suspensão de serviços e a preocupação de milhares de correntistas que tentavam acessar seu dinheiro.
Segundo o Banco Central paraguaio, a decisão de iniciar o chamado procedimento de resolução foi tomada em 2 de novembro, após ajustes nos demonstrativos financeiros revelarem que o índice de solvência do Ueno estava abaixo de 50% do mínimo regulamentar. Na prática, a medida permite que autoridades assumam o controle da instituição para avaliar seus ativos, organizar suas obrigações e buscar alternativas para proteger os depositantes. O BCP afirmou que a intervenção tem como objetivo preservar a estabilidade financeira e classificou o episódio como um caso isolado, sem evidências de problemas semelhantes em todo o sistema bancário.
A situação ganhou dimensão política porque Carvallo comandou a antiga financeira Ueno até agosto de 2023, antes de assumir a presidência do Banco Central. O presidente do Paraguai, Santiago Peña, também manteve vínculos empresariais com o Grupo Vázquez, controlador do banco, até março de 2025. Essas relações passaram a ser questionadas diante de suspeitas de falhas na fiscalização da instituição. Peña solicitou a renúncia de Carvallo após a divulgação da crise, e o dirigente formalizou sua saída no mesmo dia, embora tenha anunciado que permaneceria temporariamente em suas funções durante a transição.
As suspeitas sobre o Ueno Bank não começaram agora. Segundo uma investigação publicada pelo jornal paraguaio ABC Color, documentos internos do Banco Central apontaram, desde 2025, alertas relacionados à concessão de empréstimos a empresas ligadas aos controladores do banco, possíveis excessos nos limites legais de crédito e questionamentos sobre garantias financeiras. Em abril de 2026, novas observações teriam sido formalizadas pelos órgãos de fiscalização. As informações estão sob investigação e não representam, por si só, comprovação definitiva de crimes cometidos pelos envolvidos.
O Ministério Público paraguaio também iniciou procedimentos para apurar possíveis irregularidades. A Justiça determinou a prisão de oito pessoas ligadas à administração da instituição, incluindo o presidente do banco, Miguel Vázquez. Até esta quarta-feira (4), a agência EFE havia confirmado a detenção de sete dirigentes. A investigação deverá examinar a gestão financeira da empresa, a concessão de empréstimos e as circunstâncias que levaram à deterioração de sua situação patrimonial.
Outro ponto que preocupa as autoridades é a presença de recursos públicos no banco. Segundo a agência EFE, o Instituto de Previdência Social do Paraguai mantém aproximadamente US$ 355 milhões investidos no Ueno, que também participa do pagamento de aposentadorias de cerca de 32 mil beneficiários. Outras entidades públicas possuem recursos na instituição. A situação aumenta a necessidade de medidas para assegurar o pagamento dos aposentados e reduzir possíveis prejuízos aos cofres públicos.
O Banco Central informou que o Fundo de Garantia de Depósitos poderá cobrir valores equivalentes a até 75 salários mínimos paraguaios por depositante, aproximadamente US$ 38,6 mil. Também foi anunciado um pagamento inicial de até 10 milhões de guaranis, cerca de US$ 1,7 mil, aos correntistas, conforme os procedimentos de restituição. Apesar dessas medidas, ainda existem dúvidas sobre a recuperação de quantias superiores ao limite garantido e sobre o destino definitivo das operações do Ueno Bank.
A crise também provocou reações no Congresso paraguaio. Parlamentares da oposição anunciaram a intenção de apresentar um pedido de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, enquanto o governo busca medidas para proteger os depositantes e garantir a continuidade dos pagamentos previdenciários. O desfecho dependerá das investigações, da avaliação dos ativos da instituição e das decisões das autoridades financeiras e judiciais. Até o momento, não há decisão definitiva que estabeleça responsabilidade criminal do presidente paraguaio ou do ex-chefe do Banco Central.