Com a China como principal parceira comercial, países africanos buscam infraestrutura, industrialização e maior presença nas decisões internacionais.
O Dia da África, celebrado nesta segunda-feira (25), marca a trajetória de um continente que busca ampliar seu protagonismo político e econômico em meio às transformações da ordem global. Com o enfraquecimento de um modelo concentrado nos Estados Unidos e na Europa, países africanos passaram a diversificar parcerias e a apostar em projetos de infraestrutura, energia, transporte e industrialização.
A China se consolidou como a principal parceira comercial da África. Em 2024, o comércio entre o país asiático e o continente africano chegou a cerca de US$ 295 bilhões, em alta em relação ao ano anterior. A relação envolve investimentos em portos, ferrovias, parques industriais, energia e logística, áreas consideradas estratégicas para integrar economias locais e reduzir gargalos históricos de desenvolvimento.
Um exemplo dessa cooperação é o Parque Industrial PK24, nos arredores de Abidjan, na Costa do Marfim. A estrutura tem capacidade para processar milhares de toneladas de cacau por ano e representa uma tentativa de agregar valor à produção local, em vez de manter o país apenas como exportador de matéria-prima.
Para especialistas, os projetos chineses no continente não se limitam à cooperação industrial. Eles também fazem parte de uma estratégia de conexão entre regiões africanas por corredores comerciais, portos, ferrovias e rotas marítimas. A ampliação dessa infraestrutura pode fortalecer o comércio interno e aumentar a presença africana nas cadeias globais de produção.
O reposicionamento atual da África também precisa ser compreendido a partir de sua história. Entre os séculos 16 e 19, parte significativa das relações com a Europa foi marcada pelo tráfico de pessoas escravizadas. A partir da segunda metade do século 19, o continente passou por colonização direta, consolidada após a partilha da África entre potências europeias no Congresso de Berlim, entre 1884 e 1885.
Mesmo após os processos de independência, intensificados nas décadas de 1950 e 1960, muitos países africanos continuaram enfrentando relações econômicas desiguais com antigas metrópoles, cenário frequentemente descrito por analistas como neocolonialismo. A ausência de infraestrutura, a dependência da exportação de commodities e a fragilidade de serviços públicos básicos ainda são desafios presentes em várias regiões.
Com população estimada em 1,5 bilhão de habitantes e maioria jovem, a África passou a ser vista como uma das regiões mais estratégicas do século 21. O continente reúne recursos naturais, mercados em expansão e uma juventude que pode impulsionar novos ciclos de crescimento, desde que acompanhada por investimentos em educação, indústria, tecnologia e integração regional.
Nesse cenário, a disputa de influência entre China, Estados Unidos e Europa tende a se intensificar. Ao mesmo tempo, lideranças africanas buscam usar essa competição internacional a favor de seus próprios interesses, defendendo mais autonomia, melhores condições comerciais e maior participação nas decisões globais.