Levantamento da UEA aponta água contaminada e pede ação urgente do poder público
A qualidade da água nas principais bacias hidrográficas de Manaus atravessa uma crise alarmante. Um diagnóstico da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) revela que duas das cinco bacias avaliadas estão em situação crítica, enquanto uma terceira já apresenta deterioração acelerada. O estudo acende um alerta sobre o risco de colapso ambiental caso medidas não sejam adotadas com rapidez.
A pesquisa é conduzida pelo grupo de Química Aplicada à Tecnologia da UEA, coordenado pelo professor Sérgio Duvoisin Jr. O monitoramento ocorre em 107 pontos georreferenciados, com análise de 164 parâmetros de qualidade da água, mais do que o dobro aplicado em estados que são referência na área. Entre os fatores que mais preocupam estão os altos índices de coliformes, matéria orgânica e sólidos suspensos acima dos limites legais.
As bacias do São Raimundo e do Educandos, que cortam áreas densamente povoadas, são as mais comprometidas. Segundo o estudo, o lançamento de esgoto doméstico e industrial sem tratamento é o principal responsável pela contaminação. Duvoisin alerta que as normas ambientais previstas pela Resolução 357 do Conama estão sendo amplamente violadas nesses trechos, gerando impactos diretos na saúde pública e nos ecossistemas urbanos.
Já a bacia do Tarumã-Açu, historicamente preservada, mostra sinais claros de piora. O avanço desordenado da ocupação humana e o despejo de resíduos estão alterando sua composição natural. Para os pesquisadores, é o último momento para agir: “A bacia está pedindo socorro. Se nada for feito agora, no futuro os danos serão muito mais difíceis e caros de reverter”, reforça Duvoisin.
As bacias do Tarumã-Mirim e do Curiaú-Paraná seguem como exceções positivas, apresentando condições satisfatórias. Contudo, problemas pontuais em áreas comerciais e de abate de animais indicam que a pressão humana vem se expandindo também sobre esses mananciais, exigindo vigilância constante e planejamento preventivo.
O grupo de pesquisa já mapeou exatamente onde ocorrem os lançamentos de esgoto in natura, informação considerada estratégica para orientar ações da gestão pública. Para Duvoisin, a solução passa por duas frentes: planejamento governamental e mudança de comportamento da população. Ele destaca que o lixo descartado nos igarapés retorna como prejuízo ambiental e social. “Cada um faz parte do problema e precisa fazer parte da solução”, pontua.
O impacto da poluição não se limita aos igarapés. Tudo deságua no Rio Negro, maior fonte de água da capital. Embora ainda seja um dos rios mais preservados da Amazônia, já sofre influência direta da degradação urbana. O pesquisador reforça que confiar na “diluição natural” é um erro grave: “A água é um recurso finito. Se não mudarmos nossas atitudes, até o Rio Negro será vítima da poluição”.
A concessionária Águas de Manaus afirma que está ampliando o sistema de coleta e tratamento de esgoto por meio do programa Trata Bem Manaus. Segundo a empresa, mais de 62 milhões de litros de esgoto são tratados diariamente. A meta é alcançar 90% de cobertura dos serviços até 2033, com novas redes coletoras, 70 Estações de Tratamento de Esgoto e obras em bairros que influenciam diretamente na recuperação das bacias monitoradas.