Adriana Araújo questionou o interesse jornalístico da reportagem com Marco Antônio Heredia Viveros, preso após descumprir medida protetiva.
A jornalista Adriana Araújo, que trabalhou durante 15 anos na Record, criticou publicamente a decisão da emissora de entrevistar Marco Antônio Heredia Viveros, ex-marido de Maria da Penha e condenado por duas tentativas de homicídio contra ela. Durante comentário no Jornal da Band, a apresentadora questionou a relevância jornalística de oferecer espaço para que o agressor apresentasse sua versão sobre o caso. “Quem tenta matar quer a morte, é um assassino potencial. Qual é o verdadeiro interesse jornalístico em dar voz a um sujeito desse perfil?”, afirmou.
Adriana também classificou a iniciativa como uma forma de violência contra a própria vítima, ao permitir que o condenado voltasse a falar publicamente sobre os crimes. “Que prazer sádico é esse de deixar um criminoso contar sua versão de um crime hediondo, violentando a vítima de novo, com a deturpação dos fatos?”, declarou. A entrevista havia sido gravada por Roberto Cabrini para o programa Domingo Espetacular, mas acabou impedida de ir ao ar por determinação judicial.
Marco Antônio Heredia Viveros tentou matar Maria da Penha em duas ocasiões quando os dois ainda eram casados. Em um dos ataques, ele disparou contra as costas dela enquanto dormia, deixando-a paraplégica. Meses depois, Maria da Penha foi mantida em cárcere privado durante 15 dias e sofreu uma nova tentativa de assassinato, desta vez por eletrocussão durante um banho. O caso ganhou repercussão internacional diante da demora das autoridades brasileiras em responsabilizar o agressor.
A omissão do Estado brasileiro diante do caso resultou em uma condenação internacional e tornou Maria da Penha um dos principais símbolos da luta contra a violência doméstica no país. A mobilização em torno de sua história contribuiu para a criação da legislação que leva seu nome e estabelece mecanismos de prevenção e punição à violência praticada contra mulheres no ambiente doméstico e familiar.
Ao comentar a reportagem, Adriana Araújo destacou a importância histórica de Maria da Penha no enfrentamento desse tipo de violência. “Maria da Penha tem que ser honrada todos os dias no nosso país. Fez da dor, luta e vitória. Da coragem dela nasceu uma lei que protege todas nós, mulheres, contra a violência doméstica. Dar palco para o criminoso que tentou matá-la é banalizar a vida”, afirmou a jornalista.
A gravação da entrevista também provocou consequências judiciais para Viveros. Desde 2024, ele estava proibido de comentar publicamente o caso, tanto em entrevistas quanto nas redes sociais, em razão de uma medida protetiva concedida a Maria da Penha. Apesar da restrição, ele já havia concedido declarações negando as agressões e alegando ser “vítima” do episódio, além de participar de um documentário no qual afirmou que a ex-esposa teria inventado as violências sofridas.
Atualmente com 80 anos, Viveros voltou a apresentar argumentos semelhantes durante a entrevista concedida à Record, prevista inicialmente para ser exibida no domingo (9). O Ministério Público do Rio Grande do Norte solicitou sua prisão pelo descumprimento das determinações judiciais, e ele foi detido no mesmo dia, em Natal, onde reside. Além da prisão preventiva, a Justiça proibiu a Record de veicular a entrevista e determinou a retirada das chamadas divulgadas nas redes sociais, estabelecendo multa diária de R$ 100 mil em caso de descumprimento.