Amazonas

Geoglifos da Amazônia são tema de nova exposição no Museu da Amazônia

Mostra fotográfica revela registros aéreos das milenares estruturas escavadas por povos originários

10 de Outubro de 2025
Foto: Nelson Neto / Amz em Pauta

As enigmáticas figuras geométricas escavadas no solo amazônico, conhecidas como geoglifos, poderão ser contempladas em uma nova exposição no Museu da Amazônia (Musa), em Manaus. A mostra “Expedição – Desvelando o Passado Profundo” estreia nesta sexta-feira (10), no Jardim Botânico, e apresenta 27 fotografias que registram essas impressionantes obras deixadas por povos originários há mais de dois mil anos.

Descobertas na década de 1970, as estruturas chamam atenção pela magnitude e complexidade. Escavadas diretamente no solo, elas foram identificadas em diversas partes do mundo, mas têm uma presença expressiva no Brasil, especialmente no Acre, sul do Amazonas e Rondônia. Comparadas às famosas Linhas de Nazca, no Peru, os geoglifos brasileiros revelam a engenhosidade e o domínio técnico das civilizações amazônicas pré-coloniais.

Os registros apresentados na exposição foram capturados pelos fotógrafos Diogo Gurgel, Hudson Ferreira e Valter Calheiros, que realizaram sobrevoos em diferentes períodos na Amazônia Ocidental. As imagens aéreas permitem visualizar com precisão os desenhos geométricos, destacando formas que variam entre círculos, quadrados e elipses. A exposição tem caráter permanente e reforça o compromisso do Musa com a difusão da pesquisa arqueológica e ambiental na região.

À frente das pesquisas sobre os geoglifos está o paleontólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Acre (Ufac), Alceu Ranzi. Ele participou da primeira expedição arqueológica que identificou essas estruturas, há quase 50 anos, sob a liderança do pesquisador Ondemar Dias, pioneiro da arqueologia brasileira. Desde então, Ranzi se dedica à pesquisa e à divulgação científica, coordenando o Instituto Geoglifos da Amazônia, entidade que atua na preservação e valorização desses patrimônios.

Segundo o pesquisador, os geoglifos demonstram o avançado conhecimento técnico dos povos antigos da floresta. “Há milhares de anos, nossos antepassados dominavam a geometria e a engenharia. Escolhiam locais estratégicos, próximos a nascentes de água potável, e construíam estruturas com dezenas e até centenas de metros. Enquanto os gregos desenvolviam a geometria clássica, aqui se fazia geometria monumental”, destacou Ranzi.

Paleontólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Acre - Ufac, Alceu Ranzi (Foto: Wilson Negreiros)

Atualmente, mais de mil sítios arqueológicos já foram identificados entre o Acre, Amazonas e Rondônia. No território amazonense, as estruturas estão concentradas principalmente em Boca do Acre e Lábrea. Pesquisadores alertam que o desmatamento e os grandes empreendimentos econômicos representam ameaças diretas à conservação dessas áreas, que guardam parte essencial da história pré-colonial da Amazônia.

Os geoglifos variam em forma e dimensão, sendo a maioria composta por figuras geométricas próximas a cursos d’água. A função dessas construções ainda é um mistério, e as hipóteses vão desde rituais religiosos até observatórios astronômicos. Essa diversidade de interpretações torna os sítios uma das descobertas arqueológicas mais fascinantes do continente.

Para o Museu da Amazônia, a exposição marca mais um passo na integração entre ciência, cultura e meio ambiente. De acordo com a presidente do conselho do Musa, Marilene Corrêa, a parceria com o Instituto Geoglifos fortalece o papel do museu na valorização das pesquisas amazônicas. “O Musa já abriga um importante acervo de paleontologia e segue expandindo sua atuação com novas linhas de pesquisa, reafirmando a relevância da ciência como ferramenta de entendimento da Amazônia”, afirmou.

A superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Amazônia, Beatriz Calheiro, destacou o apoio da instituição às pesquisas. Segundo ela, a iniciativa é essencial para preservar o patrimônio cultural e fortalecer a memória regional. “O patrimônio deve ser visto como um ativo para a justiça social e o desenvolvimento sustentável. Nosso papel é apoiar tecnicamente e garantir que esses estudos sejam acessíveis e duradouros”, explicou.

A coordenadora de estudos do Instituto Geoglifos, Judith Ferreira, ressaltou a importância da interdisciplinaridade entre arqueologia e paleontologia, além de homenagear a paleontóloga Rosali Benchimol, fundamental para o avanço das pesquisas. “Foi graças à paleontologia que cheguei aos geoglifos. Essa exposição também celebra a memória de quem abriu caminhos para que hoje possamos apresentar ao público essas estruturas que revelam o passado grandioso da Amazônia”, concluiu.

Expedição – Desvelando o Passado Profundo (Foto: Nelson Neto/Amz em Pauta)

Paleontólogo Alceu Ranzi, Coordenadora do Intituto Geoglifos Judith Ferreira e Fotógrafo Hudson Ferreira  (Foto: Nelson Neto/Amz em Pauta)

Leia Mais
TV Em Pauta

COPYRIGHT © 2024-2025. AMZ EM PAUTA S.A - TODOS OS DIREIROS RESERVADOS.