Departamento de Estado dos EUA estaria examinando dados da votação após questionamentos de Flávio Bolsonaro; jornalista do UOL aponta interesses estratégicos americanos no Brasil.
O governo dos Estados Unidos, liderado pelo presidente Donald Trump, ainda não havia reconhecido oficialmente, nesta segunda-feira (26), a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), vencedor do segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL). Segundo informações divulgadas pelo jornalista José Roberto de Toledo, no programa A Hora, do Canal UOL, o Departamento de Estado americano estaria analisando dados da votação para justificar um possível adiamento do reconhecimento. A situação ganhou repercussão após Flávio Bolsonaro contestar o resultado eleitoral e anunciar que pretende pedir a anulação das eleições.
De acordo com Toledo, uma fonte relatou que autoridades americanas estariam examinando informações sobre os votos registrados após as 17h de domingo (25), quando uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), permitiu a prorrogação da votação em seções eleitorais que ainda permaneciam abertas. O jornalista afirmou ter recebido informações de bastidores sobre uma possível tentativa de encontrar argumentos para adiar o posicionamento oficial de Washington.
“A informação que eu tenho de bastidor é que a expressão que a pessoa com quem conversei usou foi: o Departamento de Estado do governo americano, que é o Itamaraty deles, está 'amaciando' os dados para achar alguma explicação para não reconhecer o resultado imediatamente”, relatou Toledo.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, um comunicado que reconheceria o resultado da eleição brasileira já havia sido preparado pelo Departamento de Estado, mas sua divulgação foi suspensa por orientação do governo Trump. A decisão teria ocorrido após Flávio Bolsonaro questionar a prorrogação da votação. Procurada pela imprensa, a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil não apresentou uma previsão para a publicação do documento.
O silêncio do governo americano contrasta com a postura adotada em 2022, quando o então presidente Joe Biden reconheceu rapidamente a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro. Desta vez, Trump não havia divulgado uma manifestação oficial até o horário das reportagens consultadas. Parlamentares democratas dos Estados Unidos, entretanto, já parabenizaram o presidente brasileiro e defenderam o respeito ao resultado eleitoral.
Na avaliação de José Roberto de Toledo, a demora também pode estar relacionada aos interesses estratégicos de Washington na América Latina. O jornalista destacou a disputa internacional pelo acesso a minerais considerados essenciais para a fabricação de baterias, microchips e semicondutores, além do desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.
Segundo o colunista, uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia favorecer uma aproximação entre o Brasil e a estratégia do governo Trump para a região, especialmente na disputa econômica e tecnológica dos Estados Unidos com a China. Essa interpretação, entretanto, é uma análise política apresentada pelo jornalista, e não uma justificativa oficialmente confirmada pela Casa Branca.
Outro ponto destacado por Toledo é a possibilidade de cooperação entre Brasil e Estados Unidos na instalação de centros de processamento de dados, conhecidos como data centers. O jornalista avalia que o interesse brasileiro em atrair investimentos nesse setor poderia criar oportunidades de diálogo entre Lula e Trump, apesar das divergências políticas existentes.
A indefinição acontece em um momento de expectativa sobre os próximos passos da relação diplomática entre os dois países. Embora o reconhecimento formal ainda não tivesse sido anunciado nas informações disponíveis, não há confirmação de que os Estados Unidos tenham decidido rejeitar definitivamente o resultado da eleição brasileira.