Europa reage a falas sobre anexação e alerta para riscos à aliança militar.
Moradores da Groenlândia fazem protesto contra os EUA, em 15 de março de 2025
Declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a Groenlândia reacenderam tensões diplomáticas entre Washington e países europeus e levantaram alertas sobre a estabilidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Segundo a Casa Branca, em comunicado enviado à agência Reuters, o território é estratégico para os EUA no contexto da segurança nacional e da contenção de adversários na região do Ártico.
De acordo com o governo norte-americano, diferentes opções de política externa estão sendo analisadas, incluindo soluções diplomáticas como a compra da ilha ou a negociação de um acordo de livre associação. Os Estados Unidos já demonstraram interesse na Groenlândia em outras ocasiões, sobretudo por razões de segurança, e mantêm uma base militar no território.
Trump passou a defender publicamente a anexação da Groenlândia ainda durante seu primeiro mandato e retomou o tema ao retornar à Casa Branca, em janeiro do ano passado. Em março, afirmou que “a Groenlândia é sobre a paz mundial” e que o território é fundamental para a segurança internacional, citando a presença de navios chineses e russos na região. Em dezembro, o presidente nomeou o governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial para tratar do assunto.
As declarações provocaram reação imediata da Dinamarca e do governo local da Groenlândia. O então ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, convocou o embaixador dos EUA em Copenhague e classificou as falas como inaceitáveis. Já o governo groenlandês reiterou que apenas a população da ilha pode decidir sobre seu futuro.
O tema ganhou novo fôlego no sábado (3), após os Estados Unidos realizarem uma operação militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro. Poucas horas depois, Katie Miller, esposa do vice-chefe de gabinete da Casa Branca, publicou nas redes sociais uma imagem da Groenlândia coberta pela bandeira dos EUA, acompanhada da legenda “em breve”, o que foi interpretado por autoridades europeias como uma ameaça.
Nesta terça-feira, líderes de França, Reino Unido, Alemanha, Itália, Polônia, Espanha e Dinamarca divulgaram um comunicado conjunto afirmando que “a Groenlândia pertence ao seu povo” e que apenas Dinamarca e Groenlândia podem decidir sobre o futuro do território. O texto ressalta que a segurança no Ártico deve ser garantida de forma coletiva, no âmbito da Organização do Tratado do Atlântico Norte, da qual tanto os EUA quanto a Dinamarca fazem parte.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que um eventual ataque dos Estados Unidos à Groenlândia poderia significar o fim da Otan. “Se os Estados Unidos decidirem atacar militarmente outro país da Otan, então tudo para. Inclusive a nossa Otan e a segurança implementada desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, declarou, acrescentando que está fazendo “tudo o que é possível” para evitar esse cenário.
Um dia antes, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, também se manifestou nas redes sociais contra a postura norte-americana. “Já chega! Chega de pressão. Chega de insinuações. Chega de fantasias de anexação”, escreveu.
A Dinamarca anunciou no ano passado um investimento de 42 bilhões de coroas dinamarquesas para reforçar sua presença militar no Ártico. A Groenlândia, embora geograficamente localizada no continente norte-americano, integra o Reino da Dinamarca desde 1953. Em 2009, o território passou a ter governo próprio e autônomo, com possibilidade de independência por meio de referendo.
Os Estados Unidos consideram a Groenlândia estratégica por seu potencial para abrigar sistemas de defesa capazes de interceptar mísseis vindos da Europa ou do Ártico, além de suas reservas de minerais, petróleo e gás natural. A exploração mineral enfrenta oposição de povos indígenas e restrições do governo local, enquanto a exploração de petróleo e gás é proibida por razões ambientais. Especialistas ouvidos pela Reuters avaliam que a chance de a população groenlandesa aprovar uma associação aos EUA é baixa.