Após 11 altas consecutivas, Bolsa se aproxima do recorde, mas correções, juros, fluxo estrangeiro e cenário eleitoral podem aumentar a volatilidade.
O Ibovespa voltou a colocar a marca de 200 mil pontos no radar dos investidores depois de uma forte sequência de valorização. O principal índice da Bolsa brasileira encerrou a quarta-feira (2) em alta de 3,05%, aos 185.205 pontos, completando 11 pregões consecutivos de avanço e registrando o maior fechamento desde o início de maio.
Com o resultado, o índice ficou aproximadamente 8% abaixo dos 200 mil pontos. Desde que iniciou uma reação na região dos 164.835 pontos, o Ibovespa acumula recuperação próxima de 12%, revertendo parte significativa das perdas observadas nos meses anteriores.
O cenário atual contrasta com o observado há menos de três meses, quando investidores discutiam até onde poderia chegar a queda da Bolsa. Entre os fatores que pressionavam o mercado estavam a retirada de recursos estrangeiros, juros elevados, maior percepção de risco fiscal, incertezas eleitorais e um ambiente externo menos favorável aos ativos de países emergentes.
Parte dessas condições começou a apresentar melhora nas últimas semanas. A pressão vendedora dos investidores estrangeiros perdeu intensidade no fim de agosto, enquanto novos recursos externos voltaram a entrar no mercado brasileiro. Nesta quarta-feira, o dólar recuou para R$ 5,109 e as taxas dos contratos de juros futuros também apresentaram queda ao longo da curva.
Juros e capital estrangeiro ajudam na recuperação
O economista e analista da Clear Rafael Perretti avalia que o desempenho do mercado brasileiro permanece fortemente relacionado a dois elementos: o cenário político interno e a trajetória dos juros no Brasil e nos Estados Unidos. Mudanças nesses fatores podem definir a continuidade ou não do movimento de valorização.
No cenário internacional, indicadores mais fracos do mercado de trabalho dos Estados Unidos podem diminuir a pressão por novos aumentos das taxas de juros pelo Federal Reserve. Um ambiente de juros americanos menos elevados tende a aumentar a atratividade de mercados emergentes e pode estimular a entrada de capital estrangeiro no Brasil.
Apesar da melhora recente, a trajetória até o recorde histórico de 199.354 pontos e, posteriormente, até a marca psicológica dos 200 mil pontos não deve ocorrer sem oscilações. Depois de 11 sessões seguidas de valorização, cresce a possibilidade de investidores realizarem parte dos lucros acumulados.
O analista e chairman da BFR Investimentos André Moraes considera que o momento exige cautela para quem pretende entrar no mercado buscando apenas ganhos de curto prazo. “Na minha visão, no curto prazo não está na hora de entrar, mas acho que ainda tem mais alta”, afirmou. Para ele, boa parte do movimento imediato já ocorreu, embora o cenário permaneça mais favorável para horizontes maiores.
Eleição aumenta influência sobre os preços
Além dos juros e do fluxo estrangeiro, o processo eleitoral brasileiro passou a exercer influência crescente sobre a Bolsa, o dólar e o mercado de juros. Uma pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira apontou empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em uma eventual disputa de segundo turno. Após a divulgação, o Ibovespa avançou, enquanto o dólar e os juros futuros recuaram.
Segundo Moraes, a política tem papel relevante na valorização recente. “A alta da Bolsa tem um motivo muito mais político do que qualquer outra coisa”, avaliou. Parte do mercado interpreta uma eleição mais equilibrada como possibilidade de mudança na condução da política fiscal a partir de 2027, embora as expectativas possam mudar rapidamente diante de novos levantamentos eleitorais.
Até a votação de outubro, pesquisas de intenção de voto, mudanças na avaliação dos candidatos e informações sobre seus programas econômicos devem ganhar espaço na formação dos preços. O mesmo componente político capaz de impulsionar o mercado também pode provocar quedas acentuadas caso as expectativas sejam alteradas.
Perretti destaca ainda que os investidores estrangeiros acompanham atentamente a evolução das contas públicas brasileiras. “A questão fiscal e o endividamento público são o calcanhar de Aquiles para o capital estrangeiro permanecer no Brasil”, afirmou. Na avaliação do economista, juros ou expectativas eleitorais podem atrair recursos inicialmente, mas a permanência desse capital dependerá de fundamentos econômicos mais consistentes.
Análise técnica mostra novas barreiras
No campo técnico, a configuração do Ibovespa também apresentou melhora. No gráfico semanal, o índice recuperou as médias móveis de nove e 21 períodos e rompeu a parte superior do canal que vinha conduzindo a correção iniciada após a máxima histórica. O movimento reforçou a presença dos compradores, mas ainda precisa ser confirmado nas próximas sessões.
O Índice de Força Relativa de 14 períodos está em 59,59 pontos no gráfico semanal, indicando fortalecimento do movimento sem que o mercado tenha entrado, nesse horizonte, em uma região considerada de sobrecompra. Antes do recorde, porém, o Ibovespa encontra uma resistência importante próxima dos 188.790 pontos. “O primeiro ponto que me chama a atenção são os 189 mil pontos. Depois, vem o topo histórico, perto dos 200 mil”, disse Moraes.
No gráfico mensal, o cenário exige maior atenção. O índice permanece acima das médias de nove, 21 e 200 períodos, mantendo a estrutura positiva de longo prazo, mas o IFR mensal chegou a 70,04 pontos, nível associado à sobrecompra. Isso não significa necessariamente uma reversão, mas aumenta a possibilidade de períodos de acomodação ou realização de lucros depois da forte valorização.
Para que os 200 mil pontos sejam alcançados, o mercado dependerá da combinação de ingresso de recursos estrangeiros, comportamento dos juros e percepção de risco. No exterior, indicadores econômicos dos Estados Unidos, inflação, petróleo e decisões do Federal Reserve continuarão sendo acompanhados. No Brasil, a eleição, a situação fiscal e a curva de juros devem ganhar ainda mais importância. Tecnicamente, o índice precisa primeiro superar a região dos 188.790 pontos, depois o recorde de 199.354 e, por fim, a barreira dos 200 mil pontos. O cenário voltou a permitir projeções mais otimistas, mas correções e maior volatilidade podem fazer parte desse caminho.