Quarta-Feira, (28 de Outubro de 2026)
Economia

Indústrias brasileiras pedem taxa contra proteína de soja da China

Empresas denunciam suspeita de concorrência desleal e cobram medidas urgentes do governo Lula; possível sobretaxa pode afetar custos de alimentos industrializados.

Por: Portal Amz em Pauta
28 de Outubro de 2026
Foto: Folha de Naviraí | Imagem de arquivo de 2018

Empresas brasileiras que produzem proteína industrializada de soja solicitaram ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a adoção de medidas comerciais urgentes contra importações do produto originárias da China. O pedido, liderado pelas companhias ADM e Solae, conta com apoio da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e busca a aplicação de uma taxa adicional provisória sobre o ingrediente. A iniciativa ocorre em meio a uma investigação de suspeita de dumping, prática comercial que pode prejudicar fabricantes nacionais e comprometer investimentos no setor alimentício.

A proteína de soja investigada é utilizada na fabricação de produtos como salsichas, mortadelas, hambúrgueres, suplementos alimentares e bebidas. Diferentemente do grão comercializado diretamente no mercado internacional, o ingrediente passa por processamento industrial para elevar sua concentração proteica e melhorar características como textura, retenção de água e rendimento dos alimentos.

Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a Abiove encaminhou um documento ao Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), solicitando a aplicação imediata de uma medida antidumping provisória. A intenção é estabelecer uma cobrança adicional sobre a proteína importada da China antes da conclusão definitiva da investigação comercial.

O processo foi aberto oficialmente em 14 de abril de 2026 pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A investigação foi iniciada após pedido apresentado pelas empresas ADM do Brasil e Solae do Brasil e analisa possíveis práticas de dumping e danos à indústria nacional. A abertura do procedimento, entretanto, não significa que a irregularidade já tenha sido comprovada.

O dumping ocorre quando um produto é exportado por um preço inferior ao seu valor considerado normal no país de origem, segundo os critérios da legislação comercial. Caso essa prática seja comprovada e provoque prejuízos à indústria brasileira, o governo poderá aplicar medidas de defesa comercial para tentar equilibrar as condições de concorrência.

No documento encaminhado ao governo, a Abiove argumenta que as empresas brasileiras possuem capacidade para atender à demanda interna, mas que o crescimento das importações chinesas em condições consideradas desleais tem prejudicado a utilização das fábricas. A entidade também afirma que a situação ameaça a continuidade dos investimentos realizados no Brasil.

Entre os exemplos apresentados está a fábrica de proteínas de soja da ADM, inaugurada em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 2018. Segundo a associação, a multinacional investiu aproximadamente R$ 1 bilhão na implantação da unidade. A empresa também mantém um centro de pesquisa e desenvolvimento em Hortolândia, no interior paulista, que recebeu investimentos superiores a R$ 55 milhões.

Os dados de comércio exterior ajudam a dimensionar a disputa. Em 2017, o Brasil importou 4,5 mil toneladas de proteína de soja chinesa. Em 2025, o volume chegou a 8,5 mil toneladas, crescimento de 88,3%. Entre janeiro e setembro de 2026, as compras somaram aproximadamente 7 mil toneladas, equivalentes a 82% de todo o volume importado no ano anterior.

A disputa acontece em um momento de forte relação comercial entre Brasil e China. Em 2025, os chineses compraram 85,6 milhões de toneladas de soja brasileira em grãos, movimentando US$ 34,7 bilhões. O volume representou aproximadamente 79% das exportações nacionais do produto. Enquanto a China é a principal compradora da soja brasileira, empresas brasileiras questionam a concorrência chinesa no mercado de proteínas industrializadas.

Apesar da pressão do setor, o MDIC informou à Folha que uma medida antidumping provisória depende de uma determinação técnica preliminar que identifique dumping, dano à indústria nacional e relação entre os dois fatores. Como essa etapa ainda não havia sido concluída, o governo afirmou que não poderia estabelecer imediatamente a cobrança solicitada.

A eventual sobretaxa também pode produzir efeitos sobre a indústria alimentícia brasileira, que utiliza proteína de soja importada como matéria-prima. Segundo estimativas apresentadas pela Abiove, o impacto nos preços finais de produtos processados de carne poderia variar entre 0,33% e 1,89%. Em um alimento vendido por R$ 20, isso representaria um acréscimo estimado entre R$ 0,07 e R$ 0,38.

 

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