Domingo, (06 de Setembro de 2026)
Cinema

Levanta e serve um café que o mundo acabou

As distopias nos alertam sobre os riscos para o planeta e futuro que estamos construindo.

Por: Emerson Medina
21 de Agosto de 2026
Foto: Divulgação

Distopias são exercícios de imaginação que nos levam para futuros sombrios onde a existência humana está por um fio. Seja por uma invasão alienígena, por fenômenos climáticos extremos ou um salto evolutivo, ou mesmo uma combinação de fatores, não são poucas, infelizmente, as formas que temos de acabar com a nossa civilização e o próprio planeta.

Recentemente duas obras nos apresentam cenários desse tipo e as duas têm relação com o Brasil. A primeira é “Corrida dos Bichos”, filme de Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis em cartaz no Amazon Prime com um elenco de estrelas: Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Grazi Massafera, Bruno Gagliasso, Seu Jorge, Thainá Duarte e Mateus Abreu como o protagonista Mano.

Foto: Divulgação

Em um futuro não muito distante, o colapso financeiro-social causou o esvaziamento dos mares e a escassez dos recursos. No Rio de Janeiro, a Baía de Guanabara é um grande deserto e a área urbana ou o que restou dela é o palco da tal corrida dos bichos, uma nova versão do antigo jogo do bicho onde os concorrentes se fantasiam de animais e percorrem um trajeto cheio de riscos mortais.

O filme tem boas ideias e é mais bem-intencionado do que executado. O perímetro que resiste ao sistema poderia ter uma influência maior na trama e uma explicação melhor sobre como funciona naquele ambiente. Ainda assim como exercício distópico ambientado no Brasil, vale a pena conferir.

A outra obra no catálogo da Netflix é o filme “A Última Casa”, dirigido por Louis Leterrier com Wagner Moura e Greta Lee no casal de protagonistas. A trama gira em torno de um fenômeno aparentemente relacionado a uma tempestade que simplesmente deixa todos os moradores trancados em casa. Sem explicação e com poucos recursos Wagner precisa valer de todo o conhecimento para salvar a família.

É bem melhor executado e estruturado como distopia em comparação com os “Bichos”, mas ainda podia ser mais ousado, ainda que isso levasse o filme a ser um pouco mais de cruel com as personagens principais. É que colocar um pé na realidade, em narrativas distópicas significa geralmente não salvar milagrosamente algumas pessoas e “A Última Casa” resiste bastante a se arriscar em ser cruel.

Ainda assim, o mistério sobre o que está acontecendo ajuda a manter o espectador a ficar confinado com aquela família e torcer por cada pequena vitória naquela situação extrema.

Mas e quando a distopia é o presente?

Não quero ser alarmista (ou talvez devesse?), mas fenômenos climáticos extremos estão cada vez mais frequentes no mundo e precisamos nunca esquecer que somos sobreviventes de uma pandemia sem paralelo na história humana. A distopia tinha nome e causa: Covid 19 e Coronavirus.

E entre tantos eventos terríveis e assustadores que passamos, o que mais me chocou foi ver que, diferente do que preconizavam os filmes, na vida real as lideranças mundiais não uniram esforços em prol de salvar a humanidade. Ao contrário, foram negligentes, negacionistas e até desdenharam de quem sufocou devido o vírus.

E foi no turbilhão de movimentos e revoltas que escrevi em menos de uma hora a história em quadrinhos curta “Prelúdio para a Tempestade”, na qual a humanidade se dividiu entre duas formas de sociedade, sendo uma na superfície que acreditou nas vacinas e outra, negacionista, ditatorial e isolada que ficou em subterrâneos.  Sim eu peço permissão para falar um pouco sobre o meu trabalho de roteirista.

A história foi lida pelo editor Alex Costa que então tinha acabado de abrir uma editora nos Estados Unidos para publicar material do Amazonas em inglês e espanhol. Assim Prelúdio acabou sendo a primeira de mais duas histórias da HQ Virustopia, hoje disponível na Amazon, em inglês e espanhol, com desenhos de Romahs Mascaranhes, Levi Gama e arte-final de Tieê Santos.

Fiz a história porque tinha muita raiva com o colapso do oxigênio que atingiu Manaus e também porque sentia falta de mais histórias que refletissem a Covid. Acredito que ainda hoje o mundo está sem entender o que passamos e isso é muito necessário, especialmente para que não se repita, especialmente o descaso dos nossos políticos. E sim, distopias são um vislumbre de futuros possíveis, mas podem ser também uma reação por algo pelo qual passamos e não faz pouco tempo.

Nota: O título é parte da letra da música “Nostradamus” de Eduardo Dussek.

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