Projeto mapeou genomas de 2.700 brasileiros e identificou 8,7 milhões de variantes genéticas desconhecidas, destacando miscigenação, ancestralidade e avanços para medicina personalizada.
O maior mapeamento genético já realizado no Brasil revelou mais de 8,7 milhões de variantes genéticas até então desconhecidas, destacando a diversidade singular da população brasileira e suas implicações diretas para o desenvolvimento da medicina personalizada.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), sequenciou o genoma de 2.700 pessoas e ganhou destaque na edição desta semana da revista Science, uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo.
Coordenado pelas cientistas Lygia da Veiga Pereira e Tábita Hünemeier, o trabalho marca o primeiro grande resultado do projeto DNA do Brasil, criado com o objetivo de mapear a diversidade genética nacional e aprimorar ferramentas de diagnóstico e tratamento com base em genômica — especialmente em um país com população etnicamente plural.
O projeto, iniciado em 2017 e com trabalhos de laboratório desde 2019, prevê o sequenciamento de genomas de mais de 15 mil pessoas. Ele foi incorporado ao Programa Nacional de Genômica e Saúde de Precisão, que reúne diversas iniciativas e pretende mapear os genomas de 100 mil brasileiros.
Segundo Lygia da Veiga Pereira, um dos principais motivos para a criação do projeto foi a baixa representatividade do genoma brasileiro nos bancos de dados internacionais, hoje utilizados em pesquisas médicas.
— “No Brasil, temos grandes frações de genomas de ancestralidade africanas e indígenas, não europeias, que são desconhecidas porque o mundo não está sequenciando”, afirma.
Esse desequilíbrio, segundo a pesquisadora, compromete a eficiência de ferramentas da medicina moderna, como a estimativa genética de risco para doenças complexas, que funcionam melhor em países de população predominantemente europeia, como Estados Unidos e nações do continente europeu.
Embora ainda seja necessária uma amostra maior para garantir alto poder estatístico e desenvolvimento de metodologias próprias, os 2.700 genomas sequenciados já têm aplicação clínica. Um exemplo prático está na análise de mutações associadas a câncer hereditário:
— “Será o caso, por exemplo, de uma família com casos de câncer de mama para que o médico decida sequenciar o gene BRCA1 para ver se tem uma mutação que explique aquela predisposição de câncer”, explica Veiga Pereira. “Muitas vezes os geneticistas acham variantes no gene que não estão descritas em nenhum banco de dados e por causa disso acham que essas variantes são o que causam a doença nessa família. Mas talvez as variantes não estejam descritas em nenhum banco de dados simplesmente porque elas quase só têm genomas de gente branca.”
A primeira etapa do projeto identificou mais de 36 mil variantes genéticas deletérias — associadas a doenças — e outras que parecem ter efeitos benéficos, como maior fertilidade, resposta imune reforçada e características metabólicas positivas.
Além do impacto clínico, o projeto está abrindo novas janelas para o entendimento da ancestralidade da população brasileira. A segunda fase, já em andamento, prevê o sequenciamento de mais de 6 mil genomas adicionais, incluindo um número maior de indivíduos negros e indígenas, o que deve ampliar ainda mais o número de variantes encontradas.
A amostra atual, embora ainda pequena em relação aos 212 milhões de brasileiros, fornece um retrato inédito da complexa diversidade genética nacional. O estudo aponta uma composição genômica média de 59,1% de ancestralidade europeia, 27,1% africana, 13,2% indígena e 0,6% asiática.
Esses dados, baseados nas variantes genéticas, não coincidem exatamente com a autodeclaração de identidade étnica dos brasileiros. Por exemplo, menos de 1% da população se identifica como indígena segundo o IBGE.
— “Outros trabalhos feitos com as questões ambientais brasileiras, que focaram mais nas regiões Sul e Sudeste, nunca foram encontrados frações tão altas de ancestralidade indígena e africana”, conta Veiga Pereira. “Muitas vezes, quando um gene analisa uma pessoa que se identifica como branca, a gente encontra frações de genomas de ancestralidade africana. E o contrário também acontece. Não existe uma comunicação direta entre a ancestralidade genômica e a maneira como uma pessoa se identifica.”
A diversidade genética do país reflete sua história de miscigenação, nem sempre voluntária. Um exemplo disso está na diferença entre a presença de DNA mitocondrial (herdado da mãe), de origem indígena, e a presença do cromossomo Y (herança masculina), que aparece em menor proporção com origem indígena.
Esse dado revela um padrão histórico: em muitos casos, mulheres indígenas foram subjugadas e incorporadas de maneira forçada às estruturas familiares impostas pelos colonizadores.
O estudo também aponta que a época de maior miscigenação genética no Brasil ocorreu nos séculos XVIII e XIX, período ainda marcado pela escravidão oficial de pessoas de origem africana.
Embora o estudo não tenha o objetivo de discutir se o país conseguiu superar ou não os traumas históricos da colonização e da escravidão, os cientistas reconhecem o valor científico e humano da diversidade genética nacional.
— “Tem um aspecto lindo desse estudo que é a gente estar mostrando a biologia por trás dessa diversidade da nossa população, que faz parte daquilo que é nossa maior força”, diz Veiga Pereira. “A gente comemora isso de várias formas, em expressões culturais, e agora a gente está expressando isso como ciência.”