Saúde

Malária continua sendo ameaça à saúde pública no Brasil, alertam especialistas

Região amazônica concentra 99% dos casos; prevenção e diagnóstico são prioridades no combate à doença.

27 de Abril de 2025
Foto: Via Ebserh

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde mostram que a malária segue como uma ameaça à saúde pública no Brasil. Em 2025, já foram registradas 27.186 ocorrências, com a região amazônica concentrando 99% dos casos. Em 2024, o país contabilizou 138.465 casos. Apesar dos avanços nas ações de prevenção, a doença transmitida pela picada do mosquito Anopheles continua exigindo atenção especial. No Dia Mundial da Luta contra a Malária, celebrado em 25 de abril, a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) reforçou a necessidade de intensificar esforços em prevenção, diagnóstico e tratamento, principalmente para as populações mais vulneráveis. 

Segundo Tobias Garcez de Jesus Junior, infectologista do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Tocantins (HDT-UFT), a malária é considerada uma doença negligenciada e está diretamente ligada às condições ambientais e sociais, como a pobreza. “A falta de acesso à saúde básica colabora para a própria perpetuação da malária. A saúde básica tem papel-chave, sobretudo na prevenção e, não menos importante, na vigilância epidemiológica dos casos. A falta de acesso a esse serviço mantém a população exposta ao vetor e dificulta a coleta e análise de dados sobre a ocorrência da malária para o planejamento de intervenções políticas eficazes de controle”, afirmou. 

No Brasil, a espécie de protozoário predominante nas regiões endêmicas é o Plasmodium vivax, responsável por mais de 80% dos casos. Os sintomas da doença incluem febre, calafrios, sudorese, dor de cabeça e dores musculares. “A malária se distingue pela febre alta com calafrios intensos e sudorese profusa. Contudo, deve-se sempre levar em consideração os vínculos epidemiológicos, isto é, a prevalência de cada doença na região e se o paciente fez alguma viagem recente”, pontuou. 

De acordo com o especialista, a falta de acesso a medicamentos antimaláricos ou a orientação médica inadequada pode levar a tratamentos incompletos ou incorretos, o que favorece a recorrência da infecção e a resistência medicamentosa. No HDT-UFT, o tratamento ambulatorial é oferecido para casos leves, enquanto casos moderados e graves são tratados com medicação intravenosa, seguindo os protocolos do Ministério da Saúde. 

Diagnóstico e tratamento 

O método padrão-ouro para diagnóstico da malária no Brasil é o exame da “gota espessa”, semelhante ao teste de glicemia, capaz de identificar o Plasmodium e determinar sua espécie. Trata-se de um exame rápido, de baixo custo e alta eficácia. O teste rápido, que detecta antígenos do parasita em cerca de 10 minutos, é outra alternativa. 

Esses diagnósticos são realizados no Hospital Universitário Júlio Müller, da Universidade Federal de Mato Grosso (HUJM-UFMT), onde também é oferecido o tratamento gratuito pelo SUS. A escolha dos medicamentos antimaláricos varia de acordo com a espécie do parasita, a gravidade do quadro e a região de infecção. 

“Os medicamentos são muito bem tolerados pelos pacientes e têm boa eficácia para curar a infecção, desde que o paciente siga todas as recomendações feitas pela equipe”, disse a pesquisadora e coordenadora da infectologia do HUJM-UFMT, Marcia Hueb. 

Prevenção 

A prevenção da malária envolve principalmente o uso de barreiras físicas, como mosquiteiros e telas em portas e janelas. Além disso, o uso de repelentes à base de icaridina ou DEET e a aplicação regular de inseticidas nas residências são recomendados. “Temos os repelentes à base de icaridina ou DEET, a aplicação regular de inseticidas nas residências e áreas urbanas (fumacê). Para os viajantes, há ainda a possibilidade de realizar a quimioprofilaxia, que deve ser orientada pelo infectologista ou especialista em medicina do viajante”, explicou Clarissa Madruga, infectologista do Hospital Universitário Lauro Wanderley, da Universidade Federal da Paraíba (HULW-UFPB). 

O professor e pesquisador Cor Jesus Fernandes Fontes, do HUJM-UFMT, destaca que a informação é fundamental na luta contra a malária. “Adquirir tais conhecimentos durante a infância, por meio de estratégias informativas da escola ou da rede básica de saúde, certamente reduzirá o impacto negativo da malária sobre a população”, afirmou. 

Atualmente, duas vacinas contra a malária estão disponíveis em outros países: a RTS,S (Mosquirix), aprovada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2015, e a R21/Matrix-M, desenvolvida pela Universidade de Oxford. Nenhuma delas, entretanto, está em uso no Brasil. “Estão indicadas para crianças da África, residentes em localidades com transmissibilidade moderada a alta. Não há perspectiva de serem incorporadas ao calendário vacinal brasileiro, pois a maioria dos casos nacionais são causados pela espécie Plasmodium vivax, reduzindo sua aplicabilidade no contexto brasileiro”, disse. 

A infecção por malária não deixa sequelas permanentes, e o paciente recupera-se completamente após o tratamento. No entanto, a doença não gera imunidade duradoura, o que significa que é possível contrair a malária novamente após novas exposições. 

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