Capital acumulou apenas 2,4 milímetros de chuva e especialistas alertam para calor intenso e possível atraso da estação chuvosa.
Manaus encerrou agosto de 2026 com o menor volume de chuva registrado nos últimos 40 anos, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Durante todo o mês, a capital amazonense acumulou apenas 2,4 milímetros de precipitação. O resultado fica atrás apenas de agosto de 1986, quando foram registrados 1,6 milímetros. O cenário de tempo seco vem acompanhado de temperaturas elevadas e pode continuar nos próximos meses sob influência do El Niño.
A única chuva registrada em Manaus durante agosto ocorreu no dia 22, após semanas de calor intenso e ausência de precipitações. Apesar do alívio momentâneo, o volume não foi suficiente para modificar de forma significativa o acumulado mensal.
Segundo o meteorologista e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Renato Senna, a redução das chuvas entre julho e setembro já era esperada, mas a influência do El Niño passou a ser percebida com maior intensidade em agosto. “Já era esperada a redução do volume de chuvas para esses meses de julho, agosto e setembro. Porém, neste mês de agosto, a gente já sente a influência do El Niño sobre essa região aqui. Há subsidência de ar, pouca formação de nuvens e, por consequência, volumes muito baixos de precipitação”, explicou Renato.
O especialista também aponta reflexos no comportamento dos rios amazônicos. Segundo ele, o cenário apresenta características semelhantes às observadas durante a estiagem de 2023. “Quando a gente tem o El Niño acoplado, como um evento de acoplamento entre o oceano e a atmosfera, a gente tem associadas, na região amazônica, ondas de calor. Em 2023, a gente teve diversas ondas de calor e um impacto muito importante sobre o comportamento dos rios, fazendo com que eles descessem abruptamente, principalmente nos meses de setembro e outubro. Alguma coisa parecida com o que a gente viu em 2023 a gente espera agora”, afirmou.
Renato Senna destacou que o Rio Negro já apresenta ritmo de descida semelhante ao observado naquele ano. “O Rio Negro, desde julho, já tem um comportamento muito similar ao que a gente viu em 2023, no movimento de descida das águas. O El Niño, que nós tínhamos visto se acoplar em julho, se estende para as bacias da margem direita, na região do Tapajós, Xingu, rio Abacaxis, e provavelmente vai acelerar a descida das águas.”
Além da falta de chuva, agosto foi marcado por sucessivos registros de temperaturas elevadas. No dia 31, Manaus atingiu 37,3°C, a maior temperatura registrada na capital em 2026 até aquele momento. Cinco dias antes, em 25 de agosto, os termômetros haviam alcançado 37,1°C. No dia 26, a máxima foi de 36,9°C.
Para setembro, a tendência é de continuidade do calor e de baixos volumes de precipitação. “Para setembro, tudo indica, nesse momento, que essa tendência segue. Não só em setembro, mas segue até o final do ano. A grande maioria dos institutos internacionais indica o El Niño se estabelecendo e chegando ao seu ápice em outubro, novembro e dezembro”, explicou Renato.
A influência do fenômeno também pode atrasar o início do período mais chuvoso na Amazônia. “Isso provavelmente vai atrasar o início da estação chuvosa no último trimestre de outubro, novembro e dezembro na região como um todo. Lá para meados de outubro e início de novembro são esperados o aumento da frequência de chuvas, as pancadas rápidas que a gente tem na estação de transição em outubro e novembro principalmente. A gente vai ter um atraso dessa condição, e dias muito quentes podem vir nos próximos meses.”
Com a manutenção do tempo seco, a atenção se volta para os efeitos sobre os rios e para a duração do período de estiagem. O comportamento das chuvas e das temperaturas nos próximos meses será determinante para avaliar a intensidade da seca de 2026 e seus possíveis impactos sobre Manaus e outras regiões do Amazonas.