Defensor de réu no caso do golpe confirma troca de mensagens com o delator
O advogado Eduardo Kuntz, que representa o coronel Marcelo Câmara, um dos réus da ação penal sobre o plano de golpe de Estado, confirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que trocou mensagens com o tenente-coronel Mauro Cid no Instagram entre janeiro e março de 2024. A revelação foi feita ao ministro Alexandre de Moraes em documento entregue na última segunda-feira (16).
A confirmação veio após a revista VEJA divulgar capturas de tela de conversas mantidas pelo perfil @gabrielar702 no Instagram com um interlocutor inicialmente não identificado. Com base na publicação, Moraes determinou que a Meta, dona da rede social, informe ao STF os dados do responsável pelo perfil utilizado.
A defesa de Mauro Cid nega a veracidade das mensagens, alegando que o conteúdo publicado pela revista não é autêntico. No entanto, Eduardo Kuntz anexou à ação uma ata notarial de 51 páginas com os prints das conversas e apresentou o material como prova para sustentar o pedido de anulação da delação premiada do militar.
As mensagens ocorreram em um período em que Cid estava proibido de utilizar redes sociais ou manter contatos externos sem autorização, como parte das medidas impostas durante as investigações da Polícia Federal. Mesmo assim, ele teria procurado Kuntz para relatar supostas irregularidades nos depoimentos prestados.
Nos diálogos, Cid afirma que o delegado responsável pelo caso, Fabio Shor, colocou palavras em sua boca e que jamais teria mencionado o termo “golpe” aos investigadores. Também reclama que tentaram conduzi-lo a determinadas versões dos fatos, com base em objetivos já traçados.
O material entregue por Kuntz ao STF também traz críticas de Cid aos ministros do Supremo. Ele chama Alexandre de Moraes de “cão de ataque” e Luís Roberto Barroso de “iluminista pensador”. Gilmar Mendes é citado como o “articulador” do tribunal. Em outro trecho, Cid chama Moraes de “Kadafi do Judiciário”.
Além disso, o delator critica seu próprio advogado, Cezar Bitencourt, apelidando-o de “Biden”, e menciona que só continua com ele por sua influência no STF. Kuntz sugere que ele troque de defensor, mas Cid justifica que Bitencourt “senta com o AM [Alexandre de Moraes]” e isso o teria livrado de voltar para a prisão.
Em outro ponto da conversa, Cid revela que a então vice-procuradora-geral da República, Lindôra Araújo, o teria alertado sobre investigações conduzidas no TSE e relatórios feitos pela PF. Segundo ele, qualquer movimentação era tratada como potencial crime. “E o PR [Bolsonaro] sabia de tudo”, escreveu.
Kuntz afirma que documentou toda a troca de mensagens para se proteger, caso estivesse sendo alvo de alguma operação controlada. O advogado pede ao STF a anulação da delação de Mauro Cid por “falta de voluntariedade” e que todas as provas derivadas dela sejam desconsideradas. O novo pedido se soma a outros feitos pelas defesas de Jair Bolsonaro e Braga Netto após a revelação do conteúdo.