Partido ultraortodoxo rompe alinhamento de três décadas com o premiê e aumenta as chances de Gadi Eisenkot assumir o comando do país.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, sofreu um novo revés político nesta quinta-feira (5), após o partido ultraortodoxo Judaísmo Unido da Torá (JUT), seu aliado há aproximadamente 30 anos, decidir não recomendar sua permanência no cargo. A decisão foi comunicada durante uma reunião com o presidente israelense, Isaac Herzog, responsável por escolher o parlamentar que receberá a missão de formar o próximo governo. O movimento enfraquece Netanyahu e favorece seu principal adversário, o centrista Gadi Eisenkot, em meio a um impasse político após as eleições parlamentares de 27 de outubro.
A decisão acontece pouco mais de uma semana depois das primeiras eleições legislativas realizadas em Israel desde os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023. Embora o partido Likud, liderado por Netanyahu, tenha conquistado o maior número de cadeiras individualmente, com 27 dos 120 assentos do Parlamento, seu bloco político não conseguiu alcançar a maioria necessária para continuar governando. O presidente Isaac Herzog iniciou uma rodada de consultas com os partidos e tem até 11 de novembro para decidir quem terá a primeira oportunidade de formar uma coalizão.
Durante o encontro desta quinta-feira, representantes do Judaísmo Unido da Torá informaram que não indicariam nenhum candidato ao cargo de primeiro-ministro. A posição representa uma mudança significativa em relação às eleições anteriores, quando a legenda apoiou Netanyahu. O partido, que conquistou sete cadeiras no Parlamento, integra historicamente o campo político conservador israelense e já havia apoiado o primeiro governo do premiê, formado em 1996. Apesar da recusa, a legenda não declarou apoio a Eisenkot, mantendo aberta a possibilidade de futuras negociações.
Um dos principais motivos do afastamento é a disputa envolvendo o serviço militar obrigatório para estudantes de instituições religiosas judaicas. O Judaísmo Unido da Torá defende a manutenção de benefícios que permitem a determinados estudantes ultraortodoxos não prestar serviço nas Forças Armadas. A questão se tornou um dos maiores pontos de tensão na política israelense, especialmente após anos de conflitos militares. Integrantes do partido demonstraram insatisfação com Netanyahu por não ter conseguido aprovar uma legislação que garantisse essas isenções durante seu governo.
O Judaísmo Unido da Torá representa principalmente comunidades judaicas ultraortodoxas de origem asquenaze, com raízes históricas na Europa Central e Oriental. A legenda é formada por duas correntes, Degel HaTorá e Agudat Yisrael, que seguem orientações de lideranças religiosas. Ambas decidiram não recomendar nenhum candidato nesta fase das negociações. Já o partido Shas, que representa principalmente setores ultraortodoxos sefarditas, manteve seu apoio a Netanyahu, evidenciando divisões entre grupos religiosos tradicionalmente alinhados ao primeiro-ministro.
Com o afastamento do aliado, a situação de Netanyahu se torna ainda mais delicada. Seu bloco conquistou 53 cadeiras, enquanto a aliança de quatro partidos liderada por Eisenkot obteve 48. Outros 19 assentos ficaram com partidos de liderança árabe, que podem influenciar a escolha do próximo primeiro-ministro. Uma dessas legendas, o Ra'am, já anunciou apoio à indicação de Eisenkot, ampliando suas possibilidades de receber o primeiro mandato para formar governo. No entanto, conseguir a indicação presidencial não garante automaticamente a formação de uma maioria parlamentar.
A decisão final de Herzog será determinante para o futuro político de Israel. O presidente deverá avaliar qual candidato possui maiores condições de reunir pelo menos 61 parlamentares e estabelecer um governo estável. Caso as negociações fracassem, o país poderá enfrentar um novo período de instabilidade e até mesmo a necessidade de convocar outras eleições. Enquanto isso, Netanyahu permanece no cargo de forma interina, mas enfrenta dificuldades crescentes para assegurar sua continuidade no poder.