Estrelado por Margot Robbie e Jacob Elordi, longa aposta na sensualidade e elimina elementos centrais do clássico de Emily Brontë
Sempre que um clássico literário ganha uma nova adaptação, a comparação é inevitável. Em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira (12), a versão de “O morro dos ventos uivantes”, dirigida por Emerald Fennell e estrelada por Margot Robbie e Jacob Elordi, assume sem rodeios que não pretende ser fiel ao romance publicado por Emily Brontë em 1847. A proposta é reinterpretar e provocar.
A diferença mais evidente está na forma como o relacionamento entre Catherine e Heathcliff é retratado. No livro, a ligação entre os dois é marcada por obsessão psicológica e espiritual, com demonstrações físicas contidas. No filme, Fennell intensifica a dimensão sexual da relação, aproxima os protagonistas de maneira explícita e carrega a narrativa de tensão erótica, característica já presente em trabalhos anteriores da diretora, como “Saltburn” (2023).
Outra mudança significativa envolve a abordagem dos abusos e das dinâmicas de poder. No romance, a violência emocional e os traumas são tratados dentro de um contexto mais amplo de hereditariedade e ciclos de crueldade, que se estendem a uma segunda geração de personagens. O longa, por sua vez, concentra a trama apenas no casal principal. A segunda geração, fundamental na obra original, foi completamente excluída, alterando a estrutura narrativa concebida por Brontë.
A caracterização de Heathcliff também gerou debate. No livro, o personagem é descrito como de pele escura e aparência estrangeira para os padrões da Inglaterra do século 19, elemento que reforça seu sentimento de exclusão. Na nova adaptação, ele é interpretado por Jacob Elordi, ator branco, repetindo uma escolha recorrente em versões anteriores. A decisão reacendeu discussões sobre “whitewashing” e sobre como a questão racial influencia, ou não, a construção do ressentimento do personagem.
Visualmente, o filme aposta no excesso. A trilha sonora é grandiosa, os figurinos evocam desfiles de alta-costura e os cenários assumem contornos quase oníricos. O melodrama é amplificado, enquanto partes mais sombrias e estruturais do livro ficam de fora. O resultado é uma obra estilizada, intensa e provocadora, elogiada por sua ousadia, mas distante da adaptação tradicional que parte do público poderia esperar.