Obra produzida por artistas amazonenses está em campanha no catarse e denuncia a tese da imunidade de rebanho contra a população do Estado
Artistas amazonenses lançaram nesta semana no catarse, a campanha da obra “O Rebanho”, uma história em quadrinhos investigativa que narra o colapso do oxigênio em Manaus e defende a tese de que o Estado foi campo da estratégia de imunidade de rebanho.
Com roteiro de Evaldo Vasconcelos, a HQ documental se vale da investigação em matérias jornalísticas e também depoimentos pessoais que sustentam, na visão do autor, que se tentou a "imunidade de rebanho por infecção natural". Essa prática é usada na pecuária para doenças de rápida infecção, apostando que mais cedo, alguns indivíduos vão desenvolver a imunidade para novas cepas erradicando a epidemia. O problema foi a estrutura de saúde diante da explosão de infectados e a alta letalidade do coronavírus aliado às comorbidades.
A arte do quadrinho é assinada pelo ilustrador amazonense Nilberto Jorge, vencedor do troféu HQMix. A edição geral é do quadrinista Luiz Andrade, também premiado pelo HQMix. A apuração e a checagem dos fatos históricos são do jornalista manauara Jorge Eduardo Dantas e a coordenadora do projeto Norte Em Quadrinhos Sâmela Hidalgo, colabora como depoente de fatos ligados à sua família na pandemia.
Todo mundo sabe onde estava naqueles dias de janeiro de 2021. Eram 7h e chegavam as primeiras notícias de falta de oxigênio no Hospital Universitário Getúlio Vargas. Ainda pela manhã faltava oxigênio no Hospital 28 de Agosto e começaram a chegar os áudios e os vídeos de desespero nas portas de hospitais e unidades de saúde da cidade. À tarde, chegavam as imagens da corrida pelos cilindros de oxigênio onde havia alguma produção em Manaus.
O colapso do oxigênio é o grande trauma da história recente do Amazonas, junto com ele houve a demora da reação das autoridades. A Venezuela conseguiu mandar cilindros mais rápido que o Ministério da Saúde e a Força Aérea Brasileira. Houve também os frigoríficos nas portas dos hospitais para armazenar os corpos, tão rápida era a mortalidade nos leitos superlotados por causa do coronovírus. E houve também as valas públicas, para o enterro rápido minimizando o risco de contaminação.
Além disso, vale lembrar a resistência do governo federal em adquirir a vacina e em apostar na cloroquina, como medicamento. A tese de imunidade de rebanho foi levantada também na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI da Covid) pelo presidente dos trabalhos, na época o senador Omar Aziz, hoje reeleito governador.
É difícil lidar com esse estresse pós-traumático, mas é necessário. São cinco anos após o maior evento sanitário global e ainda há poucas obras no cinema e nos quadrinhos que tratam do tema. Nós que sobrevivemos, precisamos lidar com ele, mais cedo ou mais tarde, para que não se repitam os mesmos equívocos.