01 de setembro de 2026
Justiça

PF revela mensagens e contratos que ampliam relação entre Moraes e Vorcaro

Relatório reúne encontros, contrato milionário, pedidos de ajuda e mensagens enviadas antes da prisão do ex-banqueiro; respostas atribuídas ao ministro não foram recuperadas e o material ainda será analisado pelas autoridades.

Por: Portal Amz em Pauta
01 de Setembro de 2026
Foto: Reprodução

Novos documentos reunidos pela Polícia Federal ampliaram os detalhes conhecidos sobre a relação entre o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O material inclui mensagens recuperadas do celular do banqueiro, registros de encontros, documentos relacionados ao contrato firmado pelo banco com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado, e contatos realizados nos dias que antecederam a primeira prisão de Vorcaro, em novembro de 2025. Nesta terça-feira (1º), o ministro André Mendonça retirou o sigilo da apuração e determinou manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

De acordo com relatório da PF, a aproximação entre Vorcaro e Moraes teria começado no fim de 2023, com intermediação do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria. Há registros de encontros nos dias 21 e 26 de dezembro daquele ano, em São Paulo. Depois da segunda reunião, Vorcaro recebeu o telefone do ministro e salvou o contato. Dias depois, também houve tratativas para um encontro em Campos do Jordão. Mensagens posteriormente analisadas pelos investigadores indicam que os contatos presenciais continuaram e apontam pelo menos seis encontros entre os dois ao longo de 2024 e 2025.

Pouco depois dos primeiros encontros, em janeiro de 2024, começou a negociação para a contratação do escritório Barci de Moraes pelo Banco Master. Viviane enviou uma minuta a Vorcaro em 11 de janeiro. Metadados analisados pela Polícia Federal indicaram que uma versão do documento passou por um perfil do Office identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” antes da assinatura. O acordo foi firmado em 23 de janeiro e previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, totalizando R$ 108 milhões. Considerados os tributos previstos, o custo bruto do contrato chegaria a aproximadamente R$ 131 milhões.

O escritório confirmou que Moraes teve acesso ao documento, mas apresentou uma explicação diferente para a participação do ministro. Segundo a banca, o setor de compliance consultou Moraes, marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento legal para aceitar o Banco Master como cliente. O escritório afirma que não havia previsão de atuação perante o STF e sustenta que o ministro nunca julgou uma causa envolvendo o banco. A banca também declarou que os serviços previstos no contrato foram efetivamente prestados.

Mensagens encontradas pela PF também mostraram a preocupação de Vorcaro com os pagamentos destinados ao escritório. Em março de 2024, ao ser informado sobre um atraso, o banqueiro tratou o repasse como prioritário e chegou a orientar que fosse realizado “sem nota, do jeito que for”. Posteriormente, foi registrado um pagamento de cerca de R$ 3,4 milhões. A mensagem, porém, mostra uma orientação atribuída a Vorcaro e, isoladamente, não comprova que o pagamento tenha sido efetivamente realizado sem documentação fiscal.

Outro ponto revelado pela investigação envolve uma segunda proposta de contrato, estimada em R$ 50 milhões. Segundo documentos analisados pela PF, foram discutidas formas de pagamento envolvendo cotas de um jatinho e de um helicóptero. O escritório de Viviane Barci de Moraes afirma que essa proposta nunca foi formalizada ou assinada e sustenta que apenas o primeiro contrato de prestação de serviços com o Banco Master entrou em vigor.

A parte mais sensível do material está nas mensagens registradas nos meses finais de 2025, quando a situação financeira e jurídica do Banco Master se agravava. Segundo o relatório, Vorcaro buscava informações sobre movimentos de órgãos como Banco Central, Polícia Federal e Ministério Público e mencionava a possibilidade de atuação junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em uma das mensagens, perguntou se seria possível “reverter” determinada situação com “Paulo ou Andrei”. O conteúdo demonstra o que Vorcaro pretendia ou esperava de seu interlocutor, mas não comprova, por si só, que qualquer uma dessas autoridades tenha sido pressionada ou que Moraes tenha atendido aos pedidos.

Em 14 de novembro de 2025, três dias antes de ser preso, Vorcaro enviou uma das mensagens que mais repercutiram após a retirada do sigilo. Nela, afirmou a Moraes: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”. No mesmo texto, disse que familiares, funcionários, parceiros e amigos tinham uma “dívida de vida” com o ministro e sua família.

Nos dias seguintes, o banqueiro demonstrou preocupação com uma possível operação. Em 15 de novembro, perguntou ao interlocutor: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”. Outras mensagens mostram Vorcaro questionando se alguma medida poderia ocorrer na manhã seguinte e buscando informações sobre a situação. Ele foi preso pela Polícia Federal em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando se preparava para embarcar em uma aeronave particular com destino internacional.

A forma utilizada por Vorcaro para se comunicar é um elemento importante para compreender os limites das provas divulgadas. Segundo a investigação, ele escrevia textos no aplicativo de notas do próprio celular, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp no modo de visualização única. Como o aparelho do banqueiro foi apreendido, os investigadores conseguiram recuperar os textos produzidos por ele, mas não as eventuais respostas enviadas pelo destinatário. Dessa maneira, o conteúdo integral das conversas não está disponível.

O tema já havia provocado controvérsia meses antes. Em março de 2026, após a divulgação de mensagens relacionadas ao dia da prisão de Vorcaro, Moraes negou ter recebido os conteúdos atribuídos a ele e classificou as informações como uma tentativa de atacar o Supremo. Agora, o novo material produzido pela Polícia Federal voltou a relacionar o ministro aos contatos mantidos pelo ex-banqueiro e levou André Mendonça, relator do caso Master no STF, a cobrar manifestação da PGR.

Com a retirada do sigilo nesta terça-feira, a apuração entra em uma nova etapa. Mendonça afirmou que os elementos deverão ser analisados institucionalmente e encaminhou o material para manifestação da Procuradoria-Geral da República. O caso também poderá ser submetido ao plenário do Supremo. Até o momento, apesar da existência de contratos, encontros e mensagens que demonstram proximidade entre Vorcaro e Moraes, não há comprovação pública de que o ministro tenha fornecido informações sigilosas, interferido em investigações ou usado o cargo para atender às solicitações feitas pelo ex-banqueiro. Essas questões permanecem sob apuração.

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