Experiência em eletroeletrônicos pode impulsionar produção de componentes com maior valor tecnológico.
O Polo Industrial de Manaus (PIM) pode ampliar sua participação na cadeia de semicondutores ao aproveitar a experiência acumulada na fabricação de celulares, televisores, computadores, motocicletas e outros produtos eletrônicos. O avanço, porém, dependerá de investimentos em pesquisa, formação profissional, desenvolvimento tecnológico e integração com a política industrial brasileira.
Os semicondutores estão presentes em equipamentos eletrônicos, veículos, máquinas industriais, dispositivos médicos e data centers usados no processamento de inteligência artificial. A importância desses componentes transformou a produção de chips em uma disputa estratégica entre países, envolvendo financiamento público, autonomia econômica e segurança industrial.
Em julho, o governo federal regulamentou o Programa Brasil Semicondutores, conhecido como Brasil Semicon. O Decreto nº 13.065 criou um conselho gestor e autorizou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) a apoiar a implantação, modernização e expansão de empresas do setor.
A política nacional também prevê ações voltadas à pesquisa, ao design de componentes, ao desenvolvimento de softwares e à formação de profissionais. Apesar de o Brasil ainda estar distante da capacidade produtiva dos principais países asiáticos, existem oportunidades em áreas como sensores, memórias, componentes de potência, testes, montagem, encapsulamento e integração de módulos.
Nesse cenário, Manaus reúne vantagens por concentrar indústrias que utilizam grandes quantidades de componentes eletrônicos. O polo possui experiência em automação, montagem de equipamentos complexos e produção em larga escala, mas ainda precisa aumentar a participação no desenvolvimento da tecnologia incorporada aos produtos.
A Zilia Technologies é um exemplo da presença desse segmento no Amazonas. A empresa mantém uma fábrica em Manaus com produção anual de cerca de 7 milhões de módulos de memória e dispositivos de armazenamento. Outra unidade, localizada em Atibaia, no interior de São Paulo, produz aproximadamente 150 milhões de chips por ano.
O BNDES aprovou R$ 143,3 milhões para apoiar pesquisas, compra de equipamentos e modernização das operações da companhia. A maior parte dos recursos será direcionada à unidade paulista, com investimentos em máquinas para montagem, testes, medição e desenvolvimento de memórias destinadas a servidores, inteligência artificial e data centers.
Mesmo com os investimentos concentrados em São Paulo, a operação instalada no Amazonas mostra que o PIM já participa de uma etapa da cadeia de semicondutores. A unidade também pode servir como base para atrair fornecedores, ampliar pesquisas e formar trabalhadores especializados.
Outros países também têm adotado estratégias para aumentar sua participação no setor. Na China, a fabricante de memórias ChangXin Memory Technologies captou US$ 8,6 bilhões em sua estreia na Bolsa de Xangai, realizada em 27 de julho. As ações da companhia encerraram o primeiro dia com valorização de 466%.
O Vietnã, que busca avançar da montagem de eletrônicos para atividades de maior valor tecnológico, reuniu representantes do governo e da SEMI Southeast Asia em 30 de julho. O encontro discutiu a atração de investimentos, a aproximação com empresas do setor e a formação de engenheiros.
Para que Manaus avance nessa cadeia, será necessário conectar os instrumentos do Brasil Semicon às demandas das empresas instaladas no Polo Industrial. O objetivo não seria produzir todos os tipos de chips, mas fortalecer áreas compatíveis com a estrutura existente e reduzir a dependência exclusiva de componentes desenvolvidos fora da região.
A combinação entre escala industrial, financiamento, pesquisa e qualificação profissional poderá permitir que o PIM deixe de atuar apenas como consumidor de semicondutores e conquiste uma posição de maior valor tecnológico no setor.