O mundo foi assolado por um vírus e, nove anos depois a humanidade sobrevive com poucos recursos. Esse é o mote do novo trabalho do icônico diretor Ridley Scott
Convidados pela Disney e 20TH Century Studios fomos conferir, na parceria AMZ Em Pauta e Filmes Gourmet, a exibição para críticos do filme “Ponto Sem Retorno” o novo longa de Ridley Scott que se mantém na ativa aos 88 anos. Em um filme enxuto, o diretor mantém o peso da experiência abraça as influências dos vídeo games.
O filme é uma adaptação do livro “Na Companhia das Estrelas” de Peter Heller e conta a história de Hig (Jacob Elordi de Euphoria) um dos sobreviventes do vírus que dizimou boa parte da população. Ele vive em um hangar abandonado com seu cachorro Jaspier e o resmunguento Bangley (Josh Broslin). E essa dinâmica entre Hig e Bangley ajuda a entender o universo do filme: enquanto Hig é otimista e recusa a violência, Bangley é desconfiado e “atira primeiro”. Afinal é um mundo novo com tribos de assaltantes impiedosos.
Nesse contexto, os Estados Unidos regrediram ao período do oeste selvagem. As cidades estão abandonadas e as pessoas vivem em cabanas isoladas na floresta, como os primeiros peregrinos que chegaram à América do Norte. Tem uma cena inclusive que a tribo lembra os indígenas norte-americanos atacando os fazendeiros à cavalo. A diferença é que a diligência de Higs é um avião monomotor, o que é uma grande vantagem para a situação atual.
Além da ameaça humana, as pessoas estão sujeitas aos perigos da vida selvagem. Sem um sistema de saúde que os ampare elas estão a mercê de doenças oportunistas como o sarampo por exemplo. Todo esse contexto e um trauma do passado levam Higs a voos mais distantes para buscar suprimentos, mas também para fazer contato com outros sobreviventes, especialmente após captar um pedaço de transmissão de rádio que parece indicar uma comunidade melhor estruturada.
É um filme de orçamento menor de Scott, longe da megaprodução de Gladiador ou mesmo da pretensão de “Blade Runner” ou “Alien”, mas ainda assim o diretor mantém o filme coeso e ainda acena ao público mais jovem com referências dos games, principalmente “Fall Out” (com o contexto das tribos) e “The Last of Us” (com um protagonista atormentado). Há também uma sequência com visão noturna onde temos a perspectiva de “jogo de tiro na primeira pessoa”.
O início do filme é melhor desenvolvido com longos planos que fazem sentir a solidão de Higs e Bangley entre as ruínas urbanas, lembrando bastante “Eu Sou a Lenda”, com Will Smith. O final parece um pouco apressado, mas atribuo isso a falta de um vilão que ameaça toda a trama. A estrutura do filme parece mesmo de game. Cada ponto de parada de Higs é um desafio novo para avançar de fase.
Por outro lado, Scott deixa o filme menos game e mais cinema quando faz uso dos planos contemplativos de voos, longas tomadas que valem a beleza da paisagem selvagem desse mundo novo. Um filme sobre o fascínio pelo desconhecido e também sobre redenção, a jornada da maturidade e a cura de velhas feridas.