Cultura

Projeto une pajés do Amazonas para fortalecer medicina ancestral indígena

“Saberes Ancestrais” foi idealizado por A-yá Kukamíria e compartilha práticas medicinais entre povos originários de Manaus.

12 de Junho de 2025
Foto: Tacio Melo

Com a proposta de promover o intercâmbio de conhecimentos entre pajés da região metropolitana de Manaus, a indígena e pajé A-yá Kukamíria, do povo Kokama, lançou o projeto “Saberes Ancestrais”. A primeira edição da iniciativa foi realizada nos dias 7 e 8 de junho, na Aldeia Inhaã-bé, situada no lago do Tarumã-Açu, em Manaus.

Em formato de workshop, o projeto contempla o ensino de práticas tradicionais como receitas de chás, banhos com ervas, cantos sagrados e rezas, com o objetivo de compartilhar e preservar a medicina indígena. O conteúdo será levado adiante pelos pajés participantes para seus territórios de origem.

A iniciativa é fruto da idealização de A-yá Kukamíria e foi viabilizada por meio do edital “Povo Indígena”, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas, vinculado à Política Nacional de Fomento à Cultura (PNAB), através da Lei Aldir Blanc.

Foto: Tacio Melo / Divulgação

Participaram do encontro os pajés Dyakuru, do povo Tuyuka, com saberes sobre o rapé; Dyakapiró, do povo Dessana, que compartilhou o uso do chá de Ayahuasca; Cleide Mainuma, também Kokama, com chás medicinais; e a própria A-yá Kukamíria, com banhos de ervas voltados à limpeza espiritual e purificação.

Além do compartilhamento das práticas, o evento foi marcado por momentos de cantos e rezas tradicionais, reafirmando a relação entre cura e espiritualidade nas culturas indígenas.

Segundo A-yá Kukamíria, a proposta nasceu da necessidade de reunir “pajés” de diferentes territórios para trocar experiências e valorizar a medicina natural ancestral.

“Esse é mais do que um encontro, é resistência ancestral em sua mais profunda essência. Aqui temos várias gerações de indígenas, que são curandeiras e pajés, e estamos fazendo essa troca de saberes para revitalizar nossa cultura com a medicina tradicional, que continua curando até hoje. 'Saberes Ancestrais' é uma união de povos e de famílias, um projeto para nos fazer sentir ‘vivos’ para continuarmos exercendo nossa função de curandeiros, com os produtos naturais da floresta, como sempre fizeram nossos ancestrais”, declarou.

O projeto surge em um contexto de desafios para os povos originários, como a invisibilidade e desvalorização cultural, e atua como ferramenta de resistência e continuidade de práticas milenares. A medicina tradicional indígena permanece viva em comunidades ribeirinhas, aldeias e até em centros urbanos como Manaus, onde ainda se encontram feiras com ervas e produtos naturais usados na cura de doenças humanas e animais.

A pajé Cleide Mainuma levou ao encontro saberes importantes, entre eles o uso do chá de embaúba, conhecido por suas propriedades anti-inflamatórias e eficaz no tratamento de problemas respiratórios e cardiovasculares. 

“Os nossos remédios estão na nossa floresta e temos muitas ervas, sementes, frutos e raízes que precisam ser cultivados para auxiliar no processo medicinal. Com a chegada da Covid e outros problemas respiratórios, precisamos ensinar e compartilhar nossos conhecimentos para levar o bem ao nosso povo e a todos”, afirmou.

A-yá Kukamíria pretende expandir o projeto para outros territórios e contextos urbanos, com o apoio de políticas públicas e editais culturais.

"A ideia é expandir o projeto para outras regiões do Amazonas, compartilhando experiências e conhecimentos adquiridos com outros povos indígenas. Isso será fundamental não apenas para o nosso aprendizado, mas também para levar a medicina tradicional cada vez mais longe e para o maior número de pessoas", finalizou.

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