Ação histórica de conservação integra programa coordenado pelo Ibama e parceiros locais.
Seis peixes-boi-da-Amazônia (Trichechus inunguis) foram reintroduzidos à natureza em julho, no município de Santarém (PA), em uma das maiores ações já registradas de soltura da espécie no Brasil. A iniciativa foi liderada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em parceria com o ZooUnama, com apoio da comunidade local de Igarapé do Costa, da prefeitura de Santarém, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas/PA), do ICMBio e de outras instituições.
Os animais, resgatados ainda filhotes, passaram por um longo processo de reabilitação até serem considerados aptos para voltar ao habitat natural com segurança. A soltura simultânea faz parte do Programa de Conservação de Peixes-Boi no Estado do Pará, que prevê a recuperação e o monitoramento de mais de 60 peixes-bois – entre os tipos dulcícolas, marinhos e híbridos, que atualmente vivem em cativeiro no estado.
“Essa é uma gestão inovadora dentro do Ibama no Pará, que busca ampliar a proteção da fauna silvestre ameaçada e engajar diferentes atores em uma rede de cooperação pela Amazônia”, afirmou Luiz Paulo Albarelli, chefe da Divisão Técnica do Ibama no Pará.
A ação também teve como foco o envolvimento das comunidades por meio de educação ambiental e capacitações, além de homenagear as localidades e pessoas que participaram dos resgates. Os seis animais soltos foram batizados com nomes que remetem aos locais onde foram encontrados: Araraú, Itarim, Pacoval, Piracoera, Ruck e Tapiri.
Projeto de reabilitação
A soltura dos peixes-boi antecedeu o lançamento oficial do Projeto de Reabilitação e Soltura de Peixes-Boi no Estado do Pará, apresentado em 18 de julho no Museu Paraense Emílio Goeldi. A iniciativa surge como condicionante ambiental vinculada a um licenciamento do Ibama para a empresa TGS, responsável por pesquisa sísmica marítima na Margem Equatorial.
Com coordenação do Ibama e apoio de instituições como o Instituto Bicho D’Água e a Universidade Federal do Pará, o projeto visa ampliar a estrutura de reabilitação, soltura e monitoramento da espécie. Entre as ações previstas estão:
• Criação de uma Base de Estabilização de Fauna Aquática em Soure (Ilha do Marajó);
• Implantação de centro de reabilitação em Castanhal (UFPA);
• Construção de um recinto natural de aclimatação pré-soltura para até 8 animais;
• Monitoramento pós-soltura por satélite e rádio;
• Estudo sobre hibridização e comportamento dos animais;
• Campanhas de educação ambiental e capacitação de comunidades.
“Além de garantir que grandes empreendimentos sejam realizados com responsabilidade, o licenciamento ambiental possibilita investimentos em projetos de conservação como esse”, destacou Claudia Barros, diretora de Licenciamento Ambiental do Ibama.
O peixe-boi-da-Amazônia
O Trichechus inunguis é um mamífero aquático herbívoro endêmico da bacia amazônica, essencial para o equilíbrio ecológico. Alimenta-se de plantas aquáticas, contribuindo para a manutenção da navegabilidade dos rios e a regeneração das matas ciliares.
Entre suas principais características estão:
• Tamanho: até 3 metros de comprimento e 450 kg;
• Alimentação: até 40 kg de plantas aquáticas por dia;
• Reprodução: gestação de 12 meses e amamentação por dois anos;
• Longevidade: cerca de 60 anos.
Apesar da proteção legal, o peixe-boi continua vulnerável à extinção, ameaçado por caça ilegal, degradação do habitat, redes de pesca e mudanças climáticas.
Além do peixe-boi amazônico, o programa abrange também o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) e híbridos naturais entre as duas espécies. A expectativa dos envolvidos é que as ações conjuntas fortaleçam a recuperação populacional e o papel ecológico desses animais na região amazônica.