Ex-árbitro defende profissionalização, elogia Raphael Claus e cobra mais transparência e apoio privado
Wilson Luiz Seneme, ex-árbitro internacional e ex-chefe da Comissão de Arbitragem da CBF, fez duras críticas à estrutura do futebol brasileiro ao comentar a atual situação da arbitragem no país. Em entrevista concedida à EPTV, em São Carlos (SP), ele defendeu a profissionalização da categoria, questionou a forma de gestão da CBF e afirmou que o “sistema é falido”.
Seneme contou que começou no futebol sonhando em ser jogador profissional. Atuou na base do Guarani, passou pelo União São João, na mesma época em que Roberto Carlos despontava, e defendeu outros clubes de menor expressão no interior paulista e no Paraná. Aos 25 anos, no entanto, decidiu encerrar a carreira para se dedicar à educação física.
A arbitragem surgiu como uma forma de complementar a renda nos fins de semana, mas acabou se tornando sua principal atividade. Em quase duas décadas, Seneme chegou ao quadro da Fifa e se firmou como um dos principais árbitros do futebol brasileiro e sul-americano, até assumir cargos de gestão na Conmebol e, posteriormente, na CBF.
No início de 2024, ele deixou a chefia da arbitragem da CBF em meio a divergências internas. “Sou extremamente frustrado de ter sido interrompido na metade de um processo. Eu esperava que a palavra dada fosse suficiente. Ser interrompido no meio do caminho foi algo frustrante e decepcionante”, relatou.
Seneme defende que empresas privadas possam ajudar na transparência da arbitragem, tirando o controle exclusivo das entidades esportivas. “Acredito que a arbitragem tem que ser democratizada. Ela precisa de ajuda, de instituições privadas que possam auxiliar a propagar e divulgar a interpretação das regras do jogo”, disse.
Responsável por introduzir o árbitro de vídeo (VAR) no futebol sul-americano, ele saiu em defesa da ferramenta, apesar das polêmicas. “A quantidade de benefícios é muito maior do que de prejuízos. O desafio é melhorar o entendimento do momento certo de o VAR participar”, explicou, destacando que mesmo em ligas como a Premier League as críticas são frequentes.
(Foto: Divulgação)
Para o ex-árbitro, a tecnologia de impedimento semiautomático deve trazer mais credibilidade, mas a prioridade é elevar o nível dos juízes em campo. “Quando temos jogos com arbitragens eficientes, o VAR não vira vitrine. Precisamos melhorar muito a qualidade do árbitro de campo para que se fale menos do VAR”, avaliou.
Seneme também abordou a questão salarial, que considera um dos grandes entraves. “Um árbitro na Conmebol ganha cerca de US$ 3.300 por jogo. Sabe quanto ganha o Raphael Claus, que é um dos melhores árbitros do mundo? R$ 8 mil. É muito, mas quantos Raphael Claus temos? Um. E a maioria enfrenta dificuldades para se manter”, argumentou.
Ele ressaltou que os árbitros “não são super-heróis”. “O árbitro é uma pessoa comum, que faz aniversário, se machuca, leva o filho à escola. Dependendo da lesão durante o jogo, termina sem falar nada. Ele não é um robô”, destacou, pedindo mais compreensão da torcida e da mídia.
Ao traçar o perfil ideal do árbitro, Seneme apontou que é preciso equilíbrio emocional, preparo físico e constante atualização técnica. Perguntado sobre quem considera o melhor do Brasil atualmente, ele não hesitou: Raphael Claus. Para Seneme, o paulista se destaca pela regularidade e pela capacidade de administrar partidas decisivas.
O ex-árbitro reafirmou que os erros de arbitragem são inevitáveis e acontecem “em qualquer parte do mundo”, mas que o Brasil precisa de processos mais claros e de valorização dos profissionais. “A arbitragem precisa de apoio para continuar evoluindo. Sem estrutura, vamos continuar reféns de um sistema que não atende mais”, disse.
Com sua experiência na Conmebol e na CBF, Seneme encerrou a entrevista reforçando a necessidade de reformas profundas. “O futebol brasileiro tem tudo para ser referência também na arbitragem. Mas, para isso, é preciso mudar a mentalidade, investir e profissionalizar de verdade. Do jeito que está, o sistema é falido”, concluiu.