Viúva de Bruno Pereira retorna pela primeira vez ao local do assassinato no Vale do Javari: “Foi um ritual de luto que eu precisava”
Três anos após o brutal assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, o clima de tensão, medo e impunidade ainda assombra o Vale do Javari, no Amazonas. A região, uma das mais sensíveis e remotas do Brasil, localizada no tríplice fronteira com Colômbia e Peru, segue marcada pela presença intensa de narcotraficantes, madeireiros e garimpeiros ilegais, apesar de operações pontuais das forças de segurança federais.
Beatriz Matos, viúva de Bruno e atual diretora do Departamento de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), retornou pela primeira vez ao local dos assassinatos, no rio Ituí, e falou ao O GLOBO sobre o luto que não pôde elaborar plenamente devido à luta contra um câncer raro enfrentado por seu filho Pedro, hoje em remissão.
"Essa é a primeira vez que volto ao Vale desde a morte do Bruno. Ver as cruzes no local do crime foi um ritual de luto que eu precisava", disse Beatriz. "Hoje, concilio o trabalho com a criação dos nossos filhos e sigo o legado do Bruno na proteção dos povos indígenas."
Impunidade e morosidade judicial
Mesmo com a prisão dos suspeitos, Amarildo da Costa Oliveira, Oseney da Costa Oliveira e Jefferson da Silva Lima, e do colombiano Rubén Dario Villar, apontado pela Polícia Federal como o mandante, o processo judicial segue sem desfecho. O Ministério Público Federal (MPF) recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para garantir que os réus sejam julgados por júri popular, mas ainda não há data para o julgamento. O inquérito sobre a atuação do suposto mandante ainda está sob análise e tramita em segredo de justiça.
Ameaças persistem
A Equipe de Vigilância da Univaja (EVU), idealizada por Bruno Pereira, continua atuando na proteção do território e multiplicou por cinco o número de monitores, chegando a 108. No entanto, lideranças indígenas denunciam que as ameaças permanecem constantes.
“Não temos paz. Recentemente recebi ameaças com armas apontadas para mim. Entrei para o programa de proteção da CIDH, mas sigo na luta”, declarou Feliciana Kanamari, da Associação Kanamari do Vale do Javari (Akavaja).
Plano de proteção avança, mas é insuficiente
Desde junho de 2023, o governo federal, por meio do MPI, coordena o Plano de Proteção Territorial do Vale do Javari. Segundo a pasta, foram realizadas 42 operações com 211 ações fiscalizatórias, R$ 27 milhões em multas, apreensão de toneladas de pescado e carne de caça ilegais, destruição de dragas e balsas usadas em garimpo e confisco de combustível e materiais utilizados em atividades ilegais.
Apesar dos avanços, especialistas e lideranças locais afirmam que as ações ainda são tímidas frente à complexidade e à extensão da área. “Não dá para acreditar que uma região tão rica e perigosa ainda não tenha bases fixas da Polícia Federal e do Ibama”, critica Bushe Matis, coordenador da Univaja.
Legado e resistência
Beatriz Matos afirma que segue comprometida com a continuidade do trabalho de seu companheiro. “Penso muito na dor que será para nossos filhos crescerem sem o pai. Não quero que a história de Bruno e Dom seja esquecida ou banalizada. É preciso dar sentido a essa tragédia. O Bruno era como o Chico Mendes para esta geração. É nele que me inspiro todos os dias.”
O assassinato de Bruno e Dom evidenciou a urgência de uma política duradoura e eficaz para proteger os defensores da floresta e os povos indígenas em regiões ameaçadas. Três anos depois, o grito por justiça ainda ecoa nas águas do Javari.