Especialistas apontam que, apesar da importância dos EUA no comércio brasileiro, a diversificação das exportações reduz o impacto das tarifas, mas a alta taxação do Brasil pode torná-lo um alvo estratégico dos EUA
O mercado financeiro inicia a semana com forte aversão ao risco após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele anunciou que as novas tarifas recíprocas afetarão todos os países, não apenas um grupo reduzido, elevando temores sobre uma possível guerra comercial global e seus impactos na economia.
Trump prometeu divulgar os detalhes do plano tarifário na quarta-feira, apelidado de "Dia da Libertação". Entre os setores já afetados estão o alumínio, aço e automóveis. Além disso, o presidente norte-americano ressaltou que a União Europeia, China, Brasil, México e Canadá impõem tarifas injustas aos EUA, o que justifica sua decisão de retaliar.
Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. Em 2024, 12% das exportações brasileiras tiveram os EUA como destino, somando US$ 40,4 bilhões, enquanto 15,5% das importações nacionais vieram do país, totalizando US$ 40,7 bilhões. Entre os produtos mais exportados estão óleos brutos e combustíveis de petróleo, ferro e aço, aeronaves, café e celulose.
Diante da escalada tarifária, o Bradesco projetou três cenários de impacto. No primeiro, se os EUA aplicarem tarifas recíprocas, a taxa média aumentaria de 2,2% para 11,3%, reduzindo as exportações brasileiras em US$ 2 bilhões. No segundo, com tarifas de 25%, a perda seria de US$ 6,5 bilhões. Já no terceiro, uma retaliação brasileira resultaria em uma queda de US$ 4,5 bilhões nas importações dos EUA.
O impacto nas tarifas também afetaria o câmbio e a inflação no Brasil. O Bradesco estima que, no pior cenário, a depreciação do real poderia chegar a 4%, elevando a inflação em até 0,3 ponto percentual. O efeito se daria tanto pelo encarecimento de importados quanto pelo repasse de custos ao mercado interno.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) analisou que, apesar da tarifa média do Brasil sobre importações americanas ser de 11,3%, o valor real pago por exportadores dos EUA é menor, chegando a 4,7%, devido a regimes tributários especiais. A Câmara Americana de Comércio (Amcham) aponta que 48% dos produtos americanos entram no Brasil sem tarifas.
Empresários americanos demonstram preocupação. Em carta à Casa Branca, a Amcham destacou que o Brasil é responsável pelo terceiro maior superávit comercial dos EUA dentro do G20. Além disso, o saldo positivo se estende ao setor de serviços, onde os EUA acumularam um superávit de US$ 165,4 bilhões com o Brasil entre 2015 e 2024.
Outra questão relevante para os EUA são as barreiras não tarifárias impostas pelo Brasil, que afetam 86% das importações. O BTG Pactual identificou que normas sanitárias, cotas e licenças dificultam a entrada de produtos estrangeiros no mercado brasileiro, o que pode motivar mais retaliações de Washington.
Especialistas destacam que, apesar do peso dos EUA no comércio exterior brasileiro, as exportações nacionais são diversificadas, reduzindo o impacto direto das tarifas. No entanto, o Brasil possui uma estrutura tarifária elevada para diversos setores, o que pode torná-lo um alvo estratégico na política comercial americana.
A incerteza quanto às novas tarifas eleva as preocupações no mercado e pode afetar a balança comercial brasileira. A expectativa é que o anúncio oficial de Trump nesta quarta-feira traga mais clareza sobre os impactos e as possíveis respostas do governo brasileiro.