Medida anunciada pelos Estados Unidos pode comprometer as operações da Corte; países europeus, Canadá e Japão manifestaram apoio ao tribunal.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, apertam as mãos enquanto Rubio discursa durante uma recepção do Mês da Herança Hispânica no Salão Leste da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, em 30 de setembro de 2026.
O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta sexta-feira (9) novas sanções contra o Tribunal Penal Internacional (TPI), sediado em Haia, nos Países Baixos. A decisão foi divulgada poucas horas depois que a jurista sul-africana Navi Pillay, ex-juíza da Corte, foi anunciada como vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2026. As medidas ampliam as restrições já impostas a integrantes do tribunal e podem atingir empresas e instituições financeiras que prestam serviços à organização.
O anúncio foi feito pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que acusou o TPI de ultrapassar sua autoridade ao investigar cidadãos dos Estados Unidos e de países aliados. Em comunicado obtido pela agência Reuters, Rubio classificou a instituição como um tribunal desonesto e afirmou que Washington pretende restringir suas operações financeiras. O secretário também ameaçou ampliar as medidas caso a Corte não interrompa ações consideradas prejudiciais aos interesses americanos.
As novas sanções poderão afetar bancos, seguradoras, empresas de tecnologia e outras organizações que mantêm contratos com o tribunal. A decisão prevê um período de seis meses para que empresas americanas encerrem determinadas relações comerciais com a instituição. O objetivo declarado pelo governo Trump é limitar os recursos disponíveis ao TPI e pressionar seus países-membros a atenderem às exigências de Washington.
O Tribunal Penal Internacional rejeitou as sanções e classificou a iniciativa como uma tentativa de interferência em sua independência. Em comunicado oficial, a Corte afirmou que a medida busca prejudicar suas investigações e impedir o cumprimento de suas responsabilidades. A instituição também pediu apoio aos 125 países que integram o tratado responsável por sua criação. A vice-procuradora Nazhat Shameem Khan declarou que as sanções não interromperão os processos em andamento.
A tensão entre Washington e o tribunal não é recente. O governo americano tem criticado investigações envolvendo militares dos Estados Unidos e mandados de prisão expedidos contra autoridades israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por suspeitas de crimes de guerra. Os Estados Unidos não reconhecem a jurisdição do TPI sobre seus cidadãos e não integram o grupo de países signatários do Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu a Corte em 2002.
A decisão provocou reações internacionais. Ministros das Relações Exteriores de países como França, Alemanha, Itália, Dinamarca e Reino Unido, além de Canadá e Japão, reafirmaram apoio ao tribunal. A Comissão Europeia também manifestou preocupação com os possíveis impactos das sanções e informou que trabalhará para garantir a continuidade das atividades da instituição. Autoridades europeias avaliam mecanismos jurídicos para proteger empresas e organizações dos efeitos das restrições americanas.
O anúncio coincidiu com a escolha de Navi Pillay para receber o Nobel da Paz de 2026. A jurista de 85 anos atuou como juíza do TPI entre 2003 e 2008 e foi reconhecida por sua trajetória na defesa dos direitos humanos e da justiça internacional. Pillay também presidiu uma comissão de investigação das Nações Unidas que concluiu que Israel cometeu genocídio na Faixa de Gaza, conclusão rejeitada pelo governo israelense.
Ao comentar a premiação durante um evento em Nuremberg, na Alemanha, Pillay fez referências ao presidente Donald Trump e criticou países que adotam medidas contra instituições internacionais de Justiça. A jurista defendeu o respeito às normas internacionais e afirmou que os líderes mundiais têm a obrigação de proteger os direitos humanos e evitar conflitos armados.
Criado em 2002, o Tribunal Penal Internacional é responsável por investigar e julgar indivíduos acusados de genocídio, crimes contra a humanidade, crimes de guerra e crimes de agressão, nos limites de sua competência. Diferentemente da Corte Internacional de Justiça, que julga disputas entre países, o TPI atua na responsabilização criminal de pessoas. As novas sanções representam mais um episódio de tensão entre os Estados Unidos e a instituição, que afirma que continuará suas atividades apesar das restrições.
Os próximos meses serão decisivos para avaliar os efeitos financeiros e operacionais das medidas. Enquanto o governo americano mantém a pressão sobre o tribunal, países europeus e outros aliados buscam alternativas diplomáticas e jurídicas para preservar seu funcionamento.
Com informações do G1 e Reuters*