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Um ano após queda de voo 2283, ex-funcionário revela falha ignorada

Falha no sistema de degelo não foi registrada e pode ter causado acidente

02 de Agosto de 2025
Foto: Divulgação

Uma nova informação sobre o acidente com um avião da VoePass, que caiu em agosto de 2024 em Vinhedo (SP), matando 62 pessoas, aponta que uma falha no sistema de degelo pode ter sido omitida do diário de bordo da aeronave. A revelação foi feita por um ex-funcionário da companhia, ouvido com exclusividade pelo portal G1.

Segundo o depoimento, o piloto que utilizou a aeronave na madrugada anterior ao acidente relatou verbalmente à equipe de manutenção problemas com o sistema de degelo. No entanto, como a falha não foi registrada formalmente no Technical Log Book (TLB), o problema foi ignorado pela liderança do hangar.

O ex-auxiliar de manutenção da VoePass afirma que havia pressão dentro da empresa para manter as aeronaves em operação, mesmo diante de falhas técnicas. Ele revelou que, na madrugada do acidente, a equipe de manutenção estava reduzida, o que dificultou a avaliação adequada da aeronave.

O voo 2283 decolou às 13h22 de Cascavel com destino a Guarulhos e caiu em Vinhedo cerca de uma hora depois. A aeronave já havia enfrentado problemas na madrugada anterior, quando pousou em Ribeirão Preto. De acordo com o relato, o piloto relatou que o sistema de degelo estava desarmando sozinho.

Imagens mostra que condições meteorológica no local da queda era de formação de gelo (Foto: Reprodução / G1)

O funcionamento do sistema de degelo é obrigatório em voos com possibilidade de formação de gelo. De acordo com especialistas, sua falha compromete a sustentação da aeronave, tornando o voo inseguro. A caixa-preta confirmou que o botão foi acionado três vezes, sem sucesso, durante o voo que resultou no acidente.

O TLB, que deveria conter esse tipo de registro técnico, não apresentava nenhuma anotação sobre falhas. A ausência do registro oficial foi usada como justificativa para liberar o ATR-72 500 para continuar operando, apesar dos alertas verbais do comandante.

A aeronave acidentada, identificada como PS-VPB, já acumulava problemas técnicos anteriores. Segundo a testemunha, ela voava com uma lista extensa de ações corretivas retardadas (ACR), uma prática regulamentada que permite postergar manutenções dentro de um prazo limite.

Além da falha no degelo, houve um histórico de despressurização e até de um tail-strike quando a cauda toca o solo durante a decolagem ou pouso, no mesmo ano do desastre. Em uma dessas ocasiões, uma comissária chegou a relatar medo de que o avião não chegasse ao destino.

Imagens aérea dos destroços do avião da Voepass que caiu em Vinhedo/SP vitimando as 62 pessoas que estavam a bordo (Foto: Reprodução / EPTV)

As investigações estão sendo conduzidas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), Polícia Federal e Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). A PF já recebeu o depoimento do ex-funcionário e apura se houve crime por negligência ou omissão.

Carlos Eduardo Palhares Machado, diretor do Instituto Nacional de Criminalística (INC), afirmou que há fortes indícios de falha no sistema de degelo. A caixa-preta registra que, dois minutos antes da queda, o copiloto menciona "bastante gelo" na estrutura da aeronave.

O delegado da PF, Edson Geraldo de Souza, afirmou que a parte mecânica da causa já está praticamente elucidada, mas que o inquérito busca compreender a dimensão da responsabilidade humana e identificar quem contribuiu diretamente para a tragédia.

Em nota, a VoePass afirmou que sempre priorizou a segurança de seus voos e que, em mais de 30 anos de operação, nunca havia enfrentado um acidente. A empresa diz estar colaborando com todas as autoridades e prestando apoio às famílias das vítimas.

Voepass fechada no aeroporto de Ribeirão Preto (Foto: Marcelo Moraes / EPTV Ribeirão)

A companhia informou ter criado um comitê de crise logo após o acidente, com atendimento psicológico e assistência logística para os familiares. Também destacou que o cofundador da empresa, José Luiz Felício Filho, participou pessoalmente das reuniões com os parentes das vítimas.

A Anac, por sua vez, informou que a aeronave tinha documentação e condições técnicas válidas no momento do voo. No entanto, confirmou que está analisando as denúncias relacionadas às manutenções e poderá aplicar sanções caso sejam comprovadas irregularidades.

A nova denúncia reforça a hipótese de que a tragédia poderia ter sido evitada, caso o defeito tivesse sido devidamente reportado e a aeronave impedida de voar. O caso segue mobilizando autoridades e especialistas em busca de justiça e melhorias na segurança aérea.

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