Negócio de US$ 14 bilhões muda controle de dados e levanta dúvidas sobre futuro do app.
A venda da operação do TikTok nos Estados Unidos, controlada pela chinesa ByteDance, deve ser consolidada nesta quinta-feira (22), após pressão do governo americano. O negócio é estimado em US$ 14 bilhões, segundo o vice-presidente dos EUA, James Vance, e envolve a transferência do poder de decisão e do controle de dados para empresas alinhadas ao governo Trump, com os chineses mantendo 20% de participação.
Entre os grupos citados na negociação estão o fundo MGX, ligado à família real dos Emirados Árabes Unidos, e a Oracle, que ficará responsável por gerenciar o armazenamento de dados. O TikTok é a quarta maior rede social do país, com cerca de 170 milhões de usuários.
A pesquisadora Andressa Michelotti, especialista em regulação e desinformação, avaliou que há um paradoxo no movimento. “Tem um paradoxo aí porque os Estados Unidos, com esse movimento de neoliberalismo econômico, usa ao mesmo tempo a justificativa da segurança nacional para poder controlar os dados de sua população. Afeta, ao mesmo tempo, o livre mercado e também a liberdade de expressão, que muitas vezes foi questionada pois houve a ameaça de fechar a plataforma", afirmou.
A ByteDance sustenta que opera com transparência e independência do governo chinês, destacando que 60% do capital é de fundos internacionais como Blackrock, General Atlantic e Susquehanna. Outros 20% são distribuídos entre empregados, incluindo 7 mil funcionários nos EUA, e os 20% restantes pertencem aos fundadores, entre eles Zhang Yiming. Mesmo assim, o governo chinês acompanhou o caso e declarou, em dezembro, esperar uma solução “em conformidade com as leis e regulamentos chineses”.
Nos EUA, há incertezas sobre como será o desmembramento da plataforma, com especulações de que a mudança pode ir além dos servidores e atingir o próprio aplicativo, incluindo aparência, funcionalidades e políticas de moderação. Michelotti afirma que uma das possibilidades é a criação de uma versão local, separada do TikTok global.
A ByteDance disse que a nova joint venture é exclusiva para os Estados Unidos e não altera a experiência do TikTok no Brasil. Ainda assim, o professor Rafael Evangelista, da Unicamp e conselheiro do CGI.br, avaliou que o caso reforça o debate sobre soberania tecnológica e governança das plataformas, que hoje têm papel central na mediação do debate público.
No Brasil, a ByteDance iniciou no dia 15 as obras de um data center dedicado ao TikTok em Caucaia, no Ceará. O empreendimento, operado pela OMNIA, do Grupo Pátria, terá 200 MW de capacidade e previsão de ser o maior da América Latina, com custo estimado em R$ 200 bilhões, abastecido por energia solar e eólica.